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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Fama, sexo e anorexia: o mundo das modelos exposto em livro

Publicado no Terra em fevereiro de 2010
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Melody "Mac" Croft trabalhava como garçonete em Nova Jersey quando foi descoberta por um fotógrafo. E, indo para Nova York, tornou-se uma das modelos mais cobiçadas do pelas revistas e desfiles por todo o mundo. Nessa jornada se deparou com fotógrafos tarados, agentes rigorosas e impessoais, modelos concorrentes e um mundo onde fortuna e autodestruição andam lado a lado.

Melody não existe e é a personagem principal de A Modelo do Ano, lançado recentemente pelo selo Galera Record. A autora, porém, é a ex-top model e atriz Carol Alt, que conhece muito do universo da moda. Durante sua carreira iniciada na década de 80, Carol estampou capas de mais de 500 revistas famosas como Harper's Bazaar e Sports Illustrated, sendo chamada pela Life de "The Face" (o rosto). A fama a levou a participar de diversos filmes na Itália e nos Estados Unidos, e também figurou no programa de TV de Donald Trump, O Aprendiz: Celebridades. E foi por telefone que Carol contou o que a levou a expor a glamourosa vida das modelos no que está sendo chamado de O Diabo Veste Prada dessa indústria.

Terra: Obviamente Mac Croft foi baseada em sua própria experiência. O quanto de Carol tem em Melody?
Carol Alt: Muitas das coisas que relato no livro vieram do que passei na vida real. Na verdade a ideia surgiu quando um agente amigo me disse que o mundo das modelos mudou muito. Hoje meninas muito novas entram nesse mercado e acabam se afundando em drogas, bebidas e fazendo sexo com fotógrafos para desaparecerem em um ano. As pessoas têm que entender que essa é uma das melhores profissões para mulheres. Em qual outra é possível ganhar mais do que um homem e faturar milhões de dólares por ano antes dos 25 anos? Eu quis mostrar que se você se mantiver recatada e firme nos seus princípios pode transformar isso tudo em uma carreira consistente.

Você acha então que hoje em dia é possível ser modelo e escapar dos pecados do mercado como bebida, drogas, sexo e anorexia?
Óbvio. Não é porque você vê outras pessoas fazendo isso que precisa ser igual. E mais, quando você mantém uma postura profissional em relação a esse trabalho acaba se dando muito melhor do que aquelas que se entregam aos vícios. Vejam aquelas que costumam se drogar e beber. Elas envelhecem antes e aí a carreira está acabada.

Na minha própria história eu vi isso acontecer. Eu comecei como substituta de Gia (Gia Marie Carangi, modelo famosíssima entre os anos 70 e 80 que, pelo vício em heroína, acabou contraindo HIV e faleceu em 1986, aos 26 anos de idade). Nos ensaios ela fazia uma ou duas fotos, saía para comprar cigarros e não voltava mais. Assim, eu acabava completando o ensaio. E acho muito importante também que a família seja envolvida nisso e que as meninas levem a mãe junto para ver como as coisas acontecem.

Então, no caso do livro temos dois modelos de comportamento para ilustrar a cabeça das modelos, o bom exemplo de Mac e o mau de Jade (melhor amiga de Melody e viciada em drogas, sexo e bebidas)?
Sim. Jade é baseada em uma grande amiga minha que sempre foi louca e continua sendo. Ela optou por ter esse comportamento e gosta de ser assim. O problema é que pessoas não gostam de gente com esse tipo de atitude. Você terá que ficar com ela por horas a fio durante o dia para produzir um ensaio e não é possível aturar alguém arrogante e sem profissionalismo.

Uma das coisas que me impressionou é que no primeiro ensaio de Melody (para a Teen Vogue), ela vai sem treinamento ou aconselhamento e se dá bem. Com todos os padrões da indústria, isso é possível?
Absolutamente, foi justamente isso que aconteceu comigo. É óbvio que muita agências fazem hoje ensaios com as meninas até para montar seus books, mas no meu caso fiz uma sessão de fotos para a Harper's Bazaar italiana sem nenhuma experiência, mas todos consideraram que eu coloquei um espírito diferente nas fotos. Eu estava me divertindo muito, adorando o que fazia e isso transpareceu a todos.

Então ser modelo vem de mais de dentro do que de um treinamento?
É um fator muito forte. Por exemplo, eu levei minha sobrinha para uma sessão de fotos para ver se conseguia colocá-la no mundo das modelos. Ela é muito parecida comigo e se vocês nos colocarem lado a a lado, podemos passar por irmãs. Você viu minhas fotos recentes? Até que eu ainda estou bonita, não é? ri E ela é muito linda. Vendo as polaróides depois, descobri que ela não levava jeito para a coisa. Seu rosto não passava nada. Meus amigos da área ainda foram muito polidos comigo quando disseram que o tipo dela não estava sendo hoje procurado pelo mercado, mas eu sabia qual era o problema e não questionei nada, nem insisti mais. Ela não foi feita para esse trabalho.

Muito se discute sobre a magreza das modelos e até mesmo Anna Wintour (a toda poderosa editora da Vogue americana e inspiradora de Miranda Priestly de O Diabo Veste Prada) entrou na discussão exigindo mudanças. Você acha que isso vai acontecer?
Vai acontecer somente quando os estilistas e designers começarem a mudar seus conceitos. São eles que pedem às agências que as modelos sejam magérrimas para caberem em suas criações. Não adianta culpar as agências. Elas vão entregar aquilo que o estilista pedir. Assim como a Mac do meu livro, eu mesma sofri porque era considerada gorda demais para os trabalhos e tive que perder muito peso até aparecer na capa da Sports Illustrated. E nesse processo eu radicalizei de uma maneira que, por uma alimentação deficiente e por sempre passar fome, chegou um momento em que a maquiagem não conseguia nem se fixar em meu rosto.

No mês passado o assunto eram as modelos cheinhas em revistas de moda. É uma tentativa de se aproximar do público-alvo, não é?
Sim, porque você pode ver roupas maravilhosas na Vogue, por exemplo, e acabar pensado que fica linda em uma modelo muito magra, mas nunca ficará bonita em mim. Essa identificação do público é importante.

E mesmo as seis modelos mais bem pagas do mundo (Gisele encabeça a lista e Alessandra Ambrósio é a sexta) não são esqueléticas.
E veja as modelos da Victoria's Secret. Todas têm formas e corpos maravilhosos. Acontece que essas são top models. Quem sofre mesmo são as modelos em início de carreira, aquelas que têm que se esforçar para fazer um ensaio por dia.

O livro mostra o lado bom de ser modelo, mas tembém a parte ruim. O que é pior: a arrogância das agentes, a esquisitice dos fotógrafos, a concorrência das modelos, a falta de amizade ou o assédio sexual?
Acho que tudo na vida tem um lado brilhante e o lado negro. Acredito mesmo que o pior é a solidão. É um trabalho solitário. Você nunca tem tempo para nada e não tem pessoas para conversar e trocar. Depois que você ganha a fama, então, quando começa a viajar diariamente, essa sensação de estar sozinha aumenta. Quando fiz meu primeiro filme, estranhei muito ter que passar três meses com a mesma equipe. Quando o trabalho terminou, meu coração estava destroçado na despedida porque criei laços com as pessoas e não estava acostumado com isso.

A fama, porém compensa, não é?
Tem uma passagem no livro que mostro um lado engraçado disso, quando um homem aborda Mac nas ruas de NY e diz que ela tem jeito de modelo. Eu passei por isso várias vezes e ficava deslumbrada. Você tem que entender que muitas modelos sofrem da história do patinho feio, porque quando estamos no colégio somos consideradas horrorosas por sermos altas e magras. De repente tudo muda e nos tornamos desejadas. Eu ficava tão feliz quando pessoas vinham me perguntar na rua se eu era modelo e se eu queria posar para ele e depois tomava bronca na agência. Aliás, os agentes nesse caso são muito importantes porque são eles que verificarão se o convite é válido ou não. Anos depois eu caí na real e vi que muitos caras falavam comigo porque eu andava com o book nas mãos, então era óbvio que eu era uma modelo. ri

Falando em alimentação, você é uma grande adepta da dieta crua e aparentemente Mac está numa dieta crua no livro. O que é exatamente isso?
Eu não quis empurrar a dieta crua para Melody para não forçar demais, por isso que ela vai a uma nutricionista na história. A dieta crua é a ingestão de alimentos não-cozidos. O nosso corpo é ácido. Nós produzimos muito ácido e nada alcalino, portanto você não deveria colocar mais ácido dentro dele ao comer. Quando se cozinha um alimento, você o torna ácido e as enzimas que auxiliam na digestão e absorção da comida pelo organismo são destruídas. Ao ingerir alimentos crus você está balanceando o PH do corpo, completando-o com produtos alcalinos.

Isso inclui carne?
Sim, carne bovina, peixes e queijo não processados. Eu adoro um sashimi, por exemplo. E tomo muito cuidado onde vou comer. Costumo levar meu próprio óleo, azeite e sal para onde vou, porque não sei a procedência do que as pessoas utilizam em restaurantes e hotéis. É um cuidado extra.

As aventuras de Mac Croft no mundo da moda vão continuar?
Sim, já lançamos aqui nos Estados Unidos o segundo livro chamado Model Inc. Tenho que confessar que escrever nunca foi minha maior prioridade, mas às vezes a caneta exige isso quando está na minha mão. Eu estou gostando muito de poder contar minha história de uma maneira diferente e ensinar meninas e suas famílias sobre como esse mundo pode ser muito bom e muito sadio. A indústria de moda ganhou uma fama muito ruim nos últimos tempos e gostaria de poder mudar isso.

Algum plano em termos Melody nas telonas?
Até agora não despertou nenhum interesse de produtoras, quem sabe daqui a alguns anos. Adoraria que, se adaptado para a TV, fosse em um canal familiar. Mesmo porque escrevi os livros para as meninas e para as mães delas.

A Modelo do Ano, de Carol Alt. Galera Record. 304 páginas

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Livro relata a aventura de dois brasileiros velejando de Miami a Ilhabela

Publicado no Terra em dezembor de 2009
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Era 24 de fevereiro de 1994 quando dois brasileiros deixaram Miami a bordo para enfrentar 13.500 kilômetros de mar em 289 dias de aventura com destino a Ilhabela, mas com um detalhe muito original, entrariam no Brasil pela Amazônia. Para adicionar mais um detalhe insólito nessa história, os dois viajaram em dois Hobby Cats 21 Sport Cruiser, um catamarã sem cabine nem motor, não muito ideal para uma travessia oceânica. A saga toda está contada no recém-lançado livro Entretrópicos da Editora Terra Virgem.

» Veja a capa do livro

Os dois aventureiros eram Beto Pandini, empresário da noite paulistana e Marcus Sulzbacher, publicitário, mas no caminho 19 outras pessoas subiram a bordo dos dois barcos, como o fotógrafo Gui von Schmidt e o sul-africano Duncan Ross, este sim o mais gabaritado em conhecimentos náuticos. O livro, com fotos deslumbrantes, é dividido em três partes: As Ilhas, com o trajeto pelas Bahamas, República Dominicana, Porto Rico e Pequenas Antilhas; Os Rios, quando entraram no continente sulamericano pelo rio Orinoco na Venezuela (desta vez com motor de popa para navegar contra a corrente) e depois seguiram pelos rios Negro e Amazonas até chegar em Belém e finalmente A Costa com a descida pelas praias brasileira (mais uma vez contra a corrente) até Ilhabela em São Paulo, onde chegaram em 6 de novembro.

Os relatos são muito divertidos e interessantes como a hospedagem gratuita em um resort nas Antilhas, as dificuldades de se lidar com a polícia venezuelana e até mesmo uma excursão ao Pico da Neblina, onde jogaram fora uma placa deixada lá pelo ex-presidente Fernando Collor. Também é emocionante os relatos sobre as pessoas que encontraram no caminho, todos muito solidários e encantados com a disposição dos marujos em vencer as águas e cumprir o seu objetivo.

Para saber mais da incrível aventura, fomos conversar com Beto Pandiani e tentar entender o que move um grupo de pessoas a passar quase um ano em perigo constante.

Terra: Quinze anos se passaram entre a aventura Entretrópicos e a publicação do livro. Por que tanto tempo para contar como foi?
Beto Pandiani: Parece mesmo uma ironia, a primeira viagem foi a mais simples de ser viabilizada financeiramente, mas a mais difícil de ser documentada em livro. Quando terminamos a viagem no final de 1994 oferecemos aos patrocinadores a oportunidade de publicarmos um livro fotográfico e eles aceitaram. Começamos mas logo no inicio de 1995 uma crise econômica desastrosa varreu nosso projeto do mapa, tudo foi cancelado. Acabei voltando para minha atividade com restaurantes porque não pude dar continuidade aos meus projetos. Foi frustrante e depois quanto mais tempo foi se passando mais difícil foi ficando. Há três anos decidi pedir a Editora Terra Virgem para incentivar o projeto do livro Entretrópicos porque ia tentar viabilizá-lo. Foi o que aconteceu. Se eu acreditasse que as coisas são casuais diria que foi um "acidente" vender o livro depois de tantos anos.

Terra: Pela narrativa, a impressão que temos é que houve um planejamento, mas não a exata noção de todos os perigos que a viagem continha. Até que ponto foi um risco calculado?
BP: Sabemos que quando uma viagem começa a chance de terminarmos não é grande, não por falta de planejamento ou por falta de capacidade, mas entendemos que andamos contra todas as estatísticas. Nunca sabemos se vamos conseguir terminar, mas nunca duvidamos do que podemos. O primeiro objetivo é voltar para casa, o segundo é chegar onde queremos mais amigos do que quando partimos. Pode-se pensar em muitos riscos e se preparar, mas a vida no mar trás um componente muito forte, o imponderável. A natureza é imponderável e o máximo que podemos fazer é nos prepararmos para o pior.

Terra: Houve algum momento em que vocês pensaram em desistir ou que a "canoa quase virou"? De tudo, qual foi o pior trecho?
BP: Nunca passou pela minha cabeça desistir. Já aconteceu o contrário, tentar imaginar um jeito de prolongar a viagem. Piores trechos foram vários, mas os mais críticos de todas as viagens, foram a travessia da Passagem de Drake, ao sul da Patagônia chilena e argentina e agora a travessia do Pacífico quando as quebras nos deixaram extremamente vulneráveis. Pela primeira vez quase fomos obrigados a pedir um resgate. Não aconteceu por pouco. Quanto a risco de vida eu nunca me senti próximo a uma situação limite.

Terra: Existe a passagem onde vocês escalam o Pico da Neblina e jogam fora a placa deixada por Collor. Você não teme uma reação do ex-presidente?
BP: Jogamos a placa fora e na época noticiamos para a mídia. Jogaria de novo. Vejo que os valores morais estão atrasados, na época da Idade Média. A tecnologia avançou e nós ficamos no passado. Esta noção de modernidade é ilusória e nos coloca em um estado de sonambulismo. Seria bem sadio se todos se manifestassem, pois o Collor foi eleito para um cargo público, não para ser dono de um feudo. Não tenho medo algum. Se cada um tivesse noção da sua força e importância nós seríamos mais unidos e tenho certeza que não teríamos governos impunes que nos fazem de bobos.

Terra: O fator humano é muito forte na narrativa, especialmente a descoberta que as pessoas podem ser muito solidárias. Depois da aventura, vocês mantiveram esse espírito? E como isso alterou a vida de vocês depois da chegada?
BP: Este é o meu olhar, como fui eu que escrevi o livro só posso responder por mim. Acho que foi o contrário, este espírito de olhar as pessoas com compaixão eu levei comigo. O que eu trouxe de volta é a certeza que o homem vale a pena. O que alterou na minha vida é que hoje posso falar do que vi e vivi. São testemunhos reais e longe da pretensão de explicar o mundo, posso dizer que aprendi muito sobre a nossa natureza e quero dizer a natureza humana.

Terra: Por falar em depois, o que aconteceu com cada um dos tripulantes nesses 15 anos?
BP: Em cada viagem fui montando equipes que algumas vezes se repetiram e em outras oportunidades foram renovadas. Tenho meus companheiros como algo sagrado, pois foram pessoas que compartilharam momentos únicos e muito especiais para mim. Hoje todos estão em outras atividades profissionais. Sou o único que vive exclusivamente das viagens e continuamos todos conectados.

Terra: Que outras aventuras você fez?
BP: Desde que me conheço por gente, gosto de viajar. Fiz outras viagens que não foram patrocinadas, mas me trazem boas recordações. Viajei 50 dias de moto pela Patagônia em 1989, indo até Ushuaia, participei da Regata dos 500 anos Portugal - Brasil, duas longas viagens no final dos anos 70 acampando pelo litoral do norte do Brasil até São Paulo. Foram muitas outras, mas sempre em caráter pessoal.

Serviço

Entretrópicos - De Miami a Ilhabela a bordo de dois Hobie Cats 21
Terra Virgem Editora
Textos de Beto Pandiani e Xavier Bartaburu
Fotos de André Andrade, Gui von Schmidt e Roberto Linsker
120 páginas - Preço: R$ 70,00

domingo, 1 de novembro de 2009

Livro, HQ e tese científica abordam os vários aspectos de Deus

Publicado no Terra em outubro de 2009
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Para alguns Ele é a fonte de toda a vida, um ser onipresente, onisciente e onipotente, que representa a bondade absoluta e a eternidade. Para outros, Ele está dentro de cada um dos seres vivos e em toda a natureza. Já existem aqueles que crêem numa entidade incorpórea e sem forma e ainda tem o grupo de pessoas que não acredita que Ele exista. Deus e sua existência ainda é um assunto polêmico, fascinante e divisor de opiniões entre o ser humano, seja ele, um crente ou não.

Para jogar um pouco de lenha na fogueira sobre o papel de Deus na criação do universo, a professora holandesa Ellen van Wolde, uma das grandes especialistas no estudo e interpretação do Velho Testamento, anunciou no começo do mês de outubro que o início do Gênesis da Bíblia tenha sofrido uma corruptela de tradução há milhares de anos. Segundo ela, ao analisar milenares versões do livro sagrado e compará-los com lendas da antiga Mesopotâmia, verificou-se que a palavra hebraica "bara", que havia sido traduzida como "criação", na verdade significa "separação" e portanto, Deus não criou o planeta e sim separou o céu da terra, desenvolvendo toda a vida nele. A professora Van Helde, que já trabalhou inclusive com o premiado escritor Umberto Eco, afirmou que o início da Bíblia não seria o começo do universo e sim o princípio de uma narrativa. E complementa: "pelos relatos, a Terra já possuía monstros marinhos e portanto já tinha água. Deus criou algumas coisas, mas separou mares dos céus". Obviamente que uma teoria destas vai criar celeuma no mundo religioso, mas a especialista, que se considera uma crente na existência do Divino, afirmou que se Deus é verdade, então ela está simplesmente reforçando essa idéia.

Errado ou não, o Gênesis ganhou uma interessantíssima versão nas mãos de um dos pais dos quadrinhos underground dos anos 60 e criador do fantástico Fritz, The Cat, o controverso Robert Crumb. Acontece que se alguém for procurar algo subversivo, anárquico ou profano nas páginas da HQ, vai se decepcionar. Na introdução do livro, Crumb explica que simplesmente reproduziu cada palavra do texto original, não tentando modernizá-lo em nenhum momento. E vai além: "não acredito que a Bíblia é a "palavra de Deus" ou "inspirada por Deus". Acredito que é a palavra dos homens. É, no entanto, um texto poderoso, com camadas de significados que mergulham fundo em nossa consciência coletiva. Parece mesmo ser uma obra inspirada". O trabalho, que levou quatro anos de estudos, foi lançado na semana passada no Brasil pela Editora Conrad. Embora na Inglaterra e nos Estados Unidos tenha gerado um debate sobre a inclusão de cenas de sexo e nudez na história, algumas autoridades eclesiásticas defenderam o trabalho, mesmo porque o Velho Testamento tem passagens envolvendo justamente sexo e nudez.

Para aqueles que querem se aprofundar ainda mais no tema, a Editora Planeta traz para o Brasil um dos momentos mais incríveis e maduros da discussão religiosa, o livro "Deus Existe?". Em 21 de fevereiro do ano 2000, o então cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, concordou em participar de um debate com o jornalista e filósofo ateu italiano, Paolo Flores d´Arcais sobre questões de fé e dogmas da igreja católica sendo mediados pelo escritor e jornalista judeu Gard Lerner. Um dos pontos altos da conversa é justamente tentar responder se alguém pode viver sem fé. Obviamente que Paolo Flores acredita que em termos de fé religiosa isso é possível já que por mais que crer em Deus e nos dogmas pode trazer conforto e ilusão, também pode nublar a mente para novas idéias. O cardeal Ratzinger já leva o assunto para o aspecto do crente valorizar o amor e não o ódio, a verdade contra a mentira e que tudo isso vem e depende de Deus. Acontece que ambos concordam com o fato de que não é preciso ser um fiel para manter valores elevados em termos éticos e morais. Com profundo respeito pela crença alheia, Flores e o cardeal Ratzinger falam ainda sobre as origens do Deus único, os abusos da Igreja Católica no passado e sua antipatia pelas questões iluministas e analisam o papado de João Paulo II. O livro traz ainda o texto "A pretensão da verdade posta em dúvida" de autoria do atual papa sobre os desafios da Igreja Católica no século XXI e "Ateísmo e verdade" de D´Arcais, inicialmente publicados na revista italiana Micromega.

Voltaire disse que se Deus não existisse, teríamos que inventá-lo. Já Mark Twain declarou que Deus é o mais popular bode-expiatório do mundo pelos nossos pecados. Existe porém uma frase do escritor e ensaísta Joseph Joubert (1754 - 1824) que serve perfeitamente para explicar o porque esse vasto assunto nunca terá uma conclusão: "é mais fácil entender Deus enquanto você não tentar explicá-lo".


Serviço

Deus existe?
Editora Planeta - 128 páginas - R$ 19,90

Gênesis por Robert Crumb
Editora Conrad - 224 páginas - R$ 49,90

sábado, 15 de agosto de 2009

Há 100 anos morria Euclides da Cunha, autor de 'Os Sertões'

Publicado no Terra em agosto de 2009
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Quando Euclides da Cunha foi mandado pelo jornal O Estado de São Paulo para os sertões baianos como correspondente na quarta incursão militar a Canudos, mal sabia ele que a experiência se transformaria em uma das mais importantes obras da literatura brasileira, Os Sertões. Para aquele jornalista, ex-militar e republicano ferrenho, a saga de Antônio Conselheiro e seus seguidores refletia a grande divisão que acompanharia o Brasil por mais de um século depois: a condição do povo litorâneo versus o povo interiorano.

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em 20 de janeiro de 1860 em Cantagalo, no Rio de Janeiro. Órfão de mãe aos três anos de idade, viveu com tias em Teresópolis, São Fidélis (RJ), e em Salvador, na Bahia, até voltar para o Rio de Janeiro em 1879. Depois de passar por algumas das melhores escolas fluminenses, tentou a carreira de engenheiro na Escola Politécnica mas foi obrigado a desistir do curso devido a problemas financeiros. Acabou então se matriculando na Escola Militar da Praia Vermelha, onde frequentou o curso de Estado-maior e Engenharia Militar, ao lado de Cândido Rondon.

O Brasil naquela época fervia com o movimento republicano e Euclides, aluno de um dos símbolos do movimento, Benjamin Constant, abraçava fortemente o ideal. Isso o levou a um protesto inusitado em 1888, atirando sua espada aos pés do Ministro de Guerra quando de uma revista às tropas. Acabou sendo desligado do exército e passou a escrever manifestos ao jornal A Província de São Paulo. Com o fim da monarquia, foi reintegrado ao serviço militar graças à ajuda do major Sólon Ribeiro, seu futuro sogro e, em 1890, casou-se com Ana Emília Ribeiro.

Quando finalmente se formou na Escola Superior de Guerra, o presidente e marechal Floriano Peixoto lhe deu a liberdade de escolher a posição que quisesse no novo governo. Avesso a nepotismo, preferiu seguir estritamente o que previa a lei para os engenheiros recém-formados: praticar, durante um ano, na Estrada de Ferro Central do Brasil. Sempre com a saúde debilitada, Euclides foi forçado a se retirar por meses na fazenda de seu pai em Belém do Descalvado e só retornou ao Rio em 1893, onde ganhou a patente de primeiro-tenente.

Três anos depois, abandonou a carreira militar e foi para São Paulo. Lá surgiu a oportunidade de ouro de sua vida, cobrir a rebelião de Canudos. Como correspondente de guerra e adido ao Estado-Maior do ministro da Guerra, o escritor ficou chocado com o que viu. Distanciou-se da visão elitista do conflito (que achava que os insurgentes simplesmente queriam a volta da monarquia) e começou a entender as razões para aquelas pessoas se rebelarem. Entendeu também como funcionava o ciclo da seca que atinge o nordeste constantemente e transforma a vida de seus habitantes. O assunto se tornaria uma de suas lutas até o fim da vida.

Testemunhando o massacre que se seguiu, doente e quebrado, Euclides da Cunha retornou ao Rio de Janeiro quatro dias antes do fim dos conflitos, mas já trazia a ideia de escrever o que considerava um "livro vingador". Depois de um tempo na fazenda do pai, voltou ao ofício de engenheiro e em 1898, chefiando a construção de uma ponte em São José do Rio Pardo, escreveu sua maior obra nas horas vagas. Chegou a afirmar: "Escrevo-o, em quartos de hora, nos intervalos de minha engenharia fatigante e obscura".

Foi somente em 1902 que, depois de exaustivas revisões, a primeira edição de Os Sertões chegou ao público. Foi um sucesso tremendo para a época e se esgotou em pouco mais de dois meses. Graças a ela, acabou sendo eleito para a Academia Brasileira de Letras e como sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Em 1904 envolve-se ativamente nos conflitos entre Brasil, Bolívia e Peru no Alto Amazonas, criticando a presença militar e sugerindo uma solução pacífica para a criação do estado do Acre. Essa experiência inspirou as obras À Margem da História, o texto filosófico Judas-Ahsverus e o ensaio Peru x Bolívia. Também propôs uma "guerra dos 100 anos" contra a seca nordestina, sugerindo uma exploração científica e econômica da região com a construção de açudes e poços e ainda o desvio do Rio São Francisco.

Depois de trabalhar por um período para o Barão do Rio Branco em questões amazônicas, candidatou-se à cadeira de Lógica no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro e ficou em segundo lugar no concurso público. O Barão e o escritor Coelho Neto acabaram interferindo no resultado, apelando para o então presidente da República, Nilo Peçanha e Euclides ficou com a posição.

Ana, Euclides e Dilermando

As constantes viagens de Euclides fizeram com que sua esposa, Ana, começasse um ardoroso romance com um jovem tenente, Dilermando de Assis. Ana teve dois filhos com o amante. Um faleceu ainda bebê (com trocas de acusações das partes, ela dizendo que Euclides a impedia de amamentar a cria e ele dizendo que Ana havia tomado abortivos) e o outro foi assumido pelo escritor, mesmo que o chamasse de "uma espiga de milho no meio do cafezal" já que era a única criança loira em meio a tantos filhos morenos. Foi justamente essa traição de Ana que desencadeou a morte de Euclides da Cunha.

Em um domingo chuvoso, a 15 de agosto de 1909, o escritor invadiu a casa do tenente com arma em punho disposto a matar ou morrer. Na troca de tiros, Euclides da Cunha foi morto. Dilermando acabou sendo absolvido pela justiça alegando legítima defesa e casou-se com Ana, os dois permaneceram juntos por mais 15 anos. Em 1916, Dilermando acabaria matando também o filho de Euclides, Quindinho, quando este tentou vingar a morte do pai e, mais uma vez, saiu livre da acusação de assassinato.

Euclides da Cunha foi velado na Academia Brasileira de Letras e seu corpo encontra-se hoje em um mausoléu em São José do Rio Pardo. A cidade promove todos os anos a semana Euclidiana, entre 9 e 15 de agosto, em homenagem ao escritor. Os Sertões já foi adaptado para o cinema (Guerra dos Canudos de Sérgio Rezende), televisão (Desejo de Wolf Maia) e teatro (na produção de José Celso Martinez Corrêa).

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Livro mostra como o mundo vê a infidelidade conjugal

Publicado no Terra em agosto de 2009
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Nos Estados Unidos é ter alguém por fora. Suecos e russos viram furtivamente à esquerda. Os israelenses chamam de comer de lado. Os japoneses, sair da estrada. Enquanto na Irlanda eles jogam à direita, na Holanda não só ficam estranhos, como também beliscam o gato no escuro. Aqui no Brasil, pulamos a cerca. Expressões bizarras e surreais para o um dos atos mais condenados abertamente e praticados secretamente no mundo: o de trair o seu cônjuge. Apesar do cristianismo, judaísmo e islamismo, as três maiores religiões do mundo, condenarem o adultério, homens e mulheres, sejam de que cultura ou localidade forem, traem ou conhecem alguém que o fazem ou foram traídos. E os motivos são muitos: de é uma tórrida relação sexual, à busca de um romance ou o preenchimento de alguma lacuna em sua vida conjugal.

A jornalista americana Pamela Druckerman resolveu investigar justamente o conceito de infidelidade em oito países do mundo e relatou suas descobertas no recém lançado livro "Na Ponta da Língua" da Editora Record. O mais interessante é que a inspiração para seu trabalho veio de sua experiência como correspondente do Wall Street Journal no Brasil e Argentina e ao fato de que uma aliança no dedo não impedia os casados latinos em propor encontros sexuais a ela. Criada nos padrões puritanos americanos, Pamela obviamente ficava enojada com nossa cara de pau, mas passou a questionar até mesmo os valores de seu país.

A proposta do trabalho não é científica. Na verdade, Pamela viajou para 24 cidades em 10 países e entrevistou dezenas de pessoas sobre a questão da traição e explica que a quantidade de declarações nem mesmo constitui uma base estatística confiável. O interessante mesmo é verificar, através da leitura, as diferenças entre os países. Em alguns lugares como na França, por exemplo, esbarrou com um preconceito em relação ao termo infidelidade, considerado ofensivo e preso a conceitos religiosos. O melhor naquele país é chamar de multirrelacionamentos simultâneos. Já no Japão a própria noção de culpa é desconhecida. Algumas conclusões são realmente curiosas, como você pode conferir abaixo:

Estados Unidos
Quem já assistiu à sensacional série Mad Men, passada em 1960, pode ver homens e mulheres em relações extraconjugais quase que o tempo todo. Ao entrevistar senhoras aposentadas vivendo hoje na Flórida, Pamela verificou que é os anos dourados da Era Kennedy foram assim mesmo, mas hoje o mais poderoso país do mundo vive uma revolução conservadora e trair é um dos mais graves pecados, porque envolve o ato de mentir. Atolados na culpa, especialmente graças à influência da filosofia protestante, o americano adúltero esconde seus casos até mesmo de seus amigos mais íntimos e milhares de "consultores conjugais" criam seminários, livros e grupos de apoio para evitar que alguém saia da linha.

França
Apesar da fama de liberal e da infidelidade parecer ser um esporte nacional, a jornalista viu que os franceses sim, ainda sustentam a monogamia fiel como o ideal para um relacionamento a dois. Existe, porém certa tranqüilidade em relação ao adultério sustentada pela política do "não pergunte, não fale". Um dos conceitos mais interessantes é que para os franceses o adultério só acontece quando o parceiro descobre, ou seja, quando os sentimentos da pessoa oficial são afetados.

Rússia
Durante o período comunista, onde o estado controlava tudo, sexo fora do casamento era uma maneira de burlar o sistema e discretamente "atacar" o governo. Hoje em dia, é quase que uma obrigação. Um dos motivos é a baixa expectativa dos homens, com uma média de 46 russos para cada 100 russas ao atingirem 65 anos, Com isso, muitas mulheres não se importam em se relacionar (ou até mesmo seduzir) homens casados e suas esposas preferem fechar os olhos em relação às puladas de cerca do marido e garantir o estrogonofe nosso de cada dia.

Japão
Primeira grande surpresa: no Japão é praticamente inexistente a oferta de camas de casal. Ainda trazendo tradições da época do xogunato, a mulher é anulada dentro do casamento e não há uma relação amorosa. Acontece que enquanto os homens vão para as casas de prostituição e cortesãs, as japonesas cultivam seus amantes, sem carregar qualquer tipo de culpa em relação ao ato. A nova geração está começando a lutar contra as milenares tradições a incorporar o amor romântico e fiel ao cotidiano japonês.

África do Sul
Ter uma amante na África é o mesmo que brincar de roleta russa com um revólver totalmente carregado. A incidência de AIDS no país é enorme e mesmo assim, homens e mulheres acreditam que devam ter vários parceiros porque nas ruas, um homem impotente é aquele que não consegue sustentar pelo menos três relações em uma noite. A prostituição é tão forte que algumas meninas abarcam a profissão apenas no último dia do mês para conseguir arrancar algum dinheiro do pessoal que está recebendo seu salário.

Indonésia
O país de cultura muçulmana se divide em aceitar ou não a poligamia. Para alguns, a liberdade de um homem em ter até quatro esposas vai evitar que ele se torne um adúltero. Para outros, como o homem pode namorar alguém mesmo estando casado, as leis religiosas vão justamente lhe dar a chance de ter diversas relações extraconjugais. De qualquer maneira, o adultério é proibido.

China
Assim como na Rússia, na época de Mao, puladas de cerca eram uma forma de protesto, mesmo porque amar era proibido. Hoje com a distensão, a moda da concubina ou segunda esposa, voltou de vento em popa, mas o governo central já estuda maneiras de coibir a prática, criminalizando o adultério, alegando que a corrupção governamental está ligada ao fato dos políticos e funcionários públicos precisarem de mais dinheiros para sustentar as amantes.

Uma vez que o Brasil ficou de fora, resolvemos perguntar à Pamela Druckerman sua experiência trabalhando no país. Morando hoje em Paris, a jornalista concedeu uma entrevista exclusiva ao Terra e mostrou sua visão dos relacionamentos brasileiros:

Você ficou impressionada com o assédio sexual latino e isso a motivou a buscar respostas sobre infidelidade, mas manteve o Brasil e a Argentina fora do livro. Alguma razão?
Os países latinos foram definitivamente a inspiração para meu livro. Foi aí que descobri que tinha mais interesse em pessoas do que em finanças (eu era uma jornalista financeira) e onde vi que eu era muito mais tipicamente americana do que pensava. O fato de homens casados me abordarem, o que antes eu considerava um insulto, me fascinou por ver que a mesma história - um homem trai a esposa e ela descobre - pode acontecer de maneiras diversas dependendo de onde você esteja. Eu adoraria fazer a pesquisa no Brasil e se o livro tiver uma seqüência, o país estará lá. Eu reconheço que o Brasil é um país complicado e diversificado. Apesar de seus problemas, existe algo muito positivo aí. A exuberância, a espontaneidade e a criatividade são um grande prazer do brasileiro.

Em sua experiência pessoal no Brasil, como sentiu que é a visão dos brasileiros em relação à infidelidade?
Fiquei impressionada que homens casados no Brasil se reúnem em um canto num churrasco para se gabar de outras mulheres em sua vida. Parece que isso aumenta seu prestígio entre os amigos. Eu tenho a impressão que as mulheres brasileiras são mais vigilantes e tentam evitar que seus maridos não tenham a chance de sair da linha. Nos EUA, ter um amante diminui seu status e ficamos entupidos de culpa, confusão e antidepressivos.

Você acha que o Brasil é esse paraíso sexual que os estrangeiros tem em mente?
Quando me mudei de Nova Iorque para São Paulo, descobri que a experiência de "encontros" era totalmente diferente nos dois lugares. Em NY, quando você dá seu telefone a um homem, ele vai esperar alguns dias antes de lhe telefonar para não parecer muito ansioso. Aí, vocês se verão uma vez por semana com a regra de que não há sexo até o 5º encontro. É bastante tentador. As coisas são mais diretas no Brasil. O homem brasileiro telefona no dia seguinte. Eles te convidam para almoçar no mesmo dia, e no dia seguinte, e assim por diante. Era tão intenso e estonteante que eu sentia como se fosse amor e que o rapaz iria me propor casamento em breve. Mas rapidamente como começou, acabava. Às vezes com um telefonema do tipo "desculpe e adeus". Isso quando não era só "adeus". Eu acabei aprendendo a não levar tudo isso tão a sério no final das contas.

Agora você está casada. Que lições sua pesquisa trouxe e que ajudam a você e seu marido na relação? Acredita que o certo é que no casamento não se fala mais nada que a verdade ou os franceses estão certos com seus segredos?
Meu marido adora dizer às pessoas que sua esposa é uma especialista em infidelidade, apesar de que se eu fosse realmente infiel, ele iria achar isso menos interessante. Eu me casei enquanto estava escrevendo o livro. Às vezes tudo que sei me deixa um pouco paranóica (tente passar seus dias lendo sobre infidelidade e não ser capaz de falar com seu marido quando ele está numa viagem de negócios). No geral, a pesquisa me fez menos "americana" e mais realista sobre tudo isso. Eu não mais espero que tenha de haver total transparência no casamento. Acredito que um pouco de mistério é sexy. E existem algumas coisas que eu realmente não quero saber.

Serviço
Na Ponta da Língua - As linguagens do adultério do Japão aos EUA
Autora: Pamela Drucker
Editora Record - 304 páginas
Em torno de R$ 35,00

sexta-feira, 31 de julho de 2009

"Pai" do Pequeno Príncipe, Exupéry desapareceu há 65 anos

Publicado no Terra em julho de 2009
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Não há quem não conheça a história do Pequeno Príncipe, a profunda, metafórica e enigmática obra de Antoine Jean-Baptiste Marie Roger de Saint-Exupéry, um piloto e escritor francês que desapareceu em um vôo de reconhecimento em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial e virou uma lenda.

Saint-Exupéry nasceu no dia 29 de junho de 1900 em uma família nobre de Lyon, seu pai era visconde. Quando estava se formando em arquitetura na Escola de Belas Artes, acabou alistando-se no exército francês em 1921, primeiramente na cavalaria leve e depois passando por um treinamento para piloto, apesar do descontentamento de seus pais e se sua então noiva, a futura escritora Louise Leveque de Vilmorin.

A partir de 1926, sua paixão por voar o colocou no serviço postal entre Toulouse e Dakar, em uma época onde aviões eram precariamente equipados. Em 1929, passou um tempo na Argentina, onde foi diretor da Companhia Aeropostal daquele país. Foi nesse ano que publicou seu primeiro livro, Correio do Sul. De volta ao norte da África, passou a fazer a rota Casablanca-Dakar.

Em 1931, suas experiências profissionais o inspiram a lançar mais uma obra, Vôo Noturno. Também neste ano, casou-se com a artista plástica e escritora salvadorenha Consuelo Suncin. O matrimônio, muito tumultuado, o levava a ficar mais tempo no ar do que em casa, por conta disso, tinha uma série de amantes por onde passava.

Em 1935, Exupéry e seu navegador sofreram um acidente no setor líbio do deserto do Saara quando tentavam bater o recorde de tempo entre Paris e Saigon. Apesar de saírem relativamente ilesos da queda, os dois passaram quatro dias vagando pelo inóspito local até serem encontrados por um beduíno. A desidratação era tão evidente que os dois nem mais suavam. Segundo o escritor, os dois experimentaram alucinações visuais e auditivas e a experiência que o inspiraria a escrever O Pequeno Príncipe, onde a história é justamente contada por um piloto que cai no deserto.

Com a segunda guerra mundial, ele voltou a se alistar e primeiramente fez parte da Força Aérea Francesa. Com a capitulação de seu país à Alemanha nazista, Antoine migrou para os Estados Unidos onde viveu em Nova York e em Long Island, mudando-se posteriormente para Quebec, no Canadá. Foi em 1942 que escreveu sua obra mais famosa, sobre o principezinho no planeta do tamanho de uma casa e com três vulcões (dois ativos e um inativo) e a bela flor.

As muitas mortes de Exupéry

Em 1944, de volta à Europa para lutar ao lado das Forças Livres da França, ele decolou de sua base na Córsega em uma missão de reconhecimento e nunca mais foi visto. Uma mulher reportou ter visto um avião caindo em 1º de agosto na costa de Carqueiranne, em Toulon, na França. Um corpo de uma soldado francês foi encontrado alguns dias depois, mas não foi possível identificar quem era e o corpo acabou sendo enterrado em Carqueiranne.

Em 1998, um pescador encontrou um bracelete de prata com os nomes de Saint-Exupéry e de sua mulher, Consuelo. Dois anos depois, o mergulhador Luc Vanrell encontrou um avião P-38 Lightning, o mesmo do voo fatídico do escritor na costa de Marselha. Em 2003, partes do aeroplano foram resgatadas. Investigadores do Departamento de Arqueologia Submarina da França confirmaram se tratar do avião de Exupéry, mas não encontraram marcas de balas na fuselagem.

Finalmente em março de 2008, o ex-piloto alemão da Luftwaffe, Horst Rippert, declarou ao jornal La Provence que fora ele quem derrubou o aeroplano de Exupéry. Segundo ex-piloto, ele derrubou um avião francês no dia 31 de julho de 1944, quando mais tarde soube que havia matado um de seus escritores favoritos, preferiu guardar segredo. O grande problema é que a versão de Rippert foi negada até pelo governo alemão, já que nos arquivos de sua força aérea não há qualquer menção sobre o fato. O mistério continua e, provavelmente, o mundo nunca saberá a verdade, apesar de ser sabido que Exupéry era o recordista de acidentes de sua companhia.

Após a morte de Exupéry, mais sete livros de sua autoria foram lançados. Sua importância na literatura francesa é imensa e sua história já foi contada em filmes como A Vida de Saint-Exupéry, de 1996, com Bruno Ganz como o escritor, e Wings of Courage, de Jean-Jacques Annaud. Seu último voo inspirou o livro The Last Flight of the Little Prince, de Jean-Pierre de Villers, e até mesmo um dos grandes mestres do quadrinho, o sensacional Hugo Pratt, chegou a imaginar essa aventura derradeira em Saint-Exupéry : Le Dernier Vol.

Eterno no imaginário das pessoas, Saint-Exupéry deixou valiosas lições de moral e ética e chegou a afirmar: "Se a vida não tem preço, nós comportamo-nos sempre como se alguma coisa ultrapassasse em valor a vida humana... Mas o quê?". Acreditamos que no caso dele foi o amor por voar.

domingo, 12 de julho de 2009

Poeta maior da America Latina, Pablo Neruda nasceu há 105 anos

Publicado no Terra em julho de 2009
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Um dos maiores poetas da língua espanhola, Pablo Neruda nasceu em 12 de julho de 1904 em Santiago no Chile, filho de um operário e de uma professora primária que faleceu um mês depois do parto. Seu nome real era Ricardo Eliezer Neftalí Reyes Basoalto, mas ainda adolescente, adotou o pseudônimo que o tornou famoso em homenagem ao escritor tcheco Jan Neruda e mais tarde, conseguiu alterar seu nome legalmente por definitivo.

Sua infância e adolescência foi passada na cidade de Temuco onde caiu nas graças da poetisa laureada com o prêmio Nobel, Gabriela Mistral, que ensinava em uma escola de moças. Com apenas 13 anos de idade, começou a colaborar com o jornal "La Mañana" e foi lá que publicou seu primeiro poema, Entusiasmo y Perseverancia. Em 1921 voltou à capital chilena para estudar francês e pedagogia na faculdade e publicou seu primeiro livro, Crepusculario em 1923 e um ano depois lançou Veinte poemas de amor y una cancion desesperada, que se tornou um de seus trabalhos mais conhecidos.

Neruda nunca terminou o curso superior e logo ingressou no trabalho diplomático, assumindo a função de cônsul em países como Burma, Ceilão, Java, Singapura, Argentina e na Espanha onde viveu em Barcelona e Madri. Foi nessa época, nos anos 20, que flertou com o surrealismo e com gente como Salvador Dali. A Guerra Civil Espanhola e a morte do escritor Garcia Lorca (que conhecia pessoalmente) o afetaram profundamente e o poeta se juntou ao movimento republicano. Em 1939 era cônsul para a emigração espanhola em Paris e logo foi transferido para o México onde se tornou Cônsul Geral. Neste país, reescreveu seu Canto General de Chile, transformando-o em um épico sobre a história da America Latina e de seu sofrido povo. A obra consistia em aproximadamente 250 poemas, divididos em vários ciclos literários.

Retornando ao Chile em 1943, inscreveu-se no partido comunista e dois anos depois foi eleito senador. A política repressiva do presidente González Videla e sua admiração pelo ditador siviético Joseph Stalin levaram-no a viver na clandestinidade, primeiramente em seu país e depois em vários países europeus. Grande parte de sua produção veio dos anos de exílio como Las Uvas y el Viento (que é um diário de seus anos afastados do Chile) e Odas elementales.

Em 1952 retornou à sua pátria onde construiu sua casa em Santiago, hoje um museu, apelidada de "La Chascona" e recebeu o Prêmio Lênin da Paz. Em 1958 foi-lhe outorgado o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford e em 1971 ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Em 1970, saiu como candidato a presidente do Chile, mas abriu mão da distinção para que Salvador Allende vencesse. Este último lhe deu a embaixada chilena na França e, quando do anúncio do prêmio Nobel, o convidou para recitar seus poemas no estádio de Santiago (em 1945 havia feito o mesmo no Brasil, no estádio do Pacaembu em um comício de Luis Carlos Prestes onde 120.000 pessoas escutaram sua obra).

Com um câncer de próstata detectado em 1973, Neruda viu seus sonhos de um Chile socialista desmoronar com o golpe militar que derrubou e assassinou Allende em 11 de setembro, promovido pelo General Augusto Pinochet. Desiludido e arrasado, Neruda faleceu em 23 de setembro deste mesmo ano, vítima de um ataque cardíaco. A filha do ex-presidente, Isabel Allende, chegou a afirmar em um livro que o grande poeta morreu mesmo é de tristeza.

Em 1974, suas memórias foram publicadas no best-seller, Confesso que Vivi. Vinte anos depois, Neruda tornou-se um dos personagens do livro e do filme O Carteiro e o Poeta, onde o mostra exilado na Itália nos anos 50, ensinando um humilde e ignorante carteiro, a força do amor e da poesia.

O trabalho de Neruda é bastante extenso. Suas Obras Completas em 1951 consistia em 459 páginas, enquanto em 1962 possuía 1.925 páginas e em 1968, 3.227 divididas em três volumes. Ele cantou o amor (Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde / amo-te diretamente sem problemas nem orgulho / amo-te assim porque não sei amar de outra maneira), a saudade (saudade é amar um passado que ainda não passou / É recusar um presente que nos machuca / É não ver o futuro que nos convida) e a vida (Viva hoje / arrisque hoje / faça hoje / não se deixe morrer lentamente). E sempre escrevia usando caneta de tinta verde. Segundo ele, o verde é a cor da esperança.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Pai de Sherlock Holmes, Conan Doyle nasceu há 150 anos

Publicado no Terra em maio de 2009
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Ele criou um dos maiores ícones da ficção mundial e revolucionou a maneira de se escrever contos de mistério, além de ter se aventurado em poesia, ficção científica e romances históricos. Estamos falando de Sir Arthur Conan Doyle, o escritor escocês que brindou o mundo com o lógico e sensacional detetive Sherlock Holmes.

Nascido em Edimburgo na Escócia em 22 de maio de 1859, Doyle foi educado em uma escola católica de jesuítas, mas acabou rejeitando o catolicismo e tornando-se agnóstico. Estudou medicina e já na faculdade começou a escrever para jornais locais. Depois de ter sido médico em um navio na costa africana e ter se aventurado em um consultório com um ex-colega de faculdade, sem muito sucesso, foi para Portsmouth, na costa sul da Inglaterra, em 1882.

Como a prática de medicina não estava indo bem e os pacientes eram escassos, começou a escrever para passar o tempo, assim surgiu o livro Um Estudo em Vermelho, o primeiro caso do famoso detetive, personagem baseado em um de seus professores, Joseph Bell. Até mesmo o autor de A Ilha do Tesouro, Robert Louis Stevenson chegou a proclamar a semelhança entre o personagem fictício e o professor real, apesar de algumas más línguas proclamarem que Doyle se baseou em Auguste Dupin, criação de Edgar Allan Poe para a obra Os Crimes da Rua Morgue. Holmes era mostrado como um homem que se atenta para os mínimos detalhes ao resolver um caso, mas não dispensa a criatividade e a imaginação ao pensar em uma solução. Isso fica latente em sua frase mais famosa: "Quando você elimina o impossível, o que sobra, por mais incrível que pareça, só pode ser a verdade". As histórias eram narradas pelo seu fiel escudeiro, Watson, também médico, que nada mais era que o alter ego de Sir Arthur.

O sucesso popular das aventuras de Holmes trouxe fama e dinheiro a seu criador, mas Conan Doyle se incomodava com o fato do personagem "tirar sua atenção para coisas mais importantes", como por exemplo os romances históricos. Assim, em 1893, tanto Sherlock, como seu nêmeses, Professor Moriarty, caíram para a morte em uma cachoeira no conto O Problema Final. Na época, a mãe de Doyle alertou-o que ele poderia fazer o que bem quisesse, mas as pessoas não aceitariam aquilo passivamente. Não deu outra e a pressão popular o fez "ressuscitar" sua criação em A Casa Vazia com a explicação que somente Moriarty morreu na queda. Holmes, no final, estrelou 56 contos e quatro romances de seu autor e virou figura lendária.

Doyle ainda teve tempo de estudar oftalmologia, defendeu a participação britânica na Guerra dos Boers na África do Sul (a Inglaterra estava sendo massacrada pela imprensa mundial devido ao ocorrido), foi feito Cavaleiro do Império em 1902 e se interessava ardorosamente por direito e justiça, tendo investigado pessoalmente dois casos. Casou-se duas vezes, a primeira com Louise Hawkins, que faleceu de tuberculose e com Jean Elizabeth Leckie. Com a morte de Louise, de seu filho Kingsley e de seu irmão, Conan Doyle entrou em depressão e se converteu ao espiritismo, tendo inclusive lançado em 1926 o livro The History of Spiritualism. Faleceu em 7 de julho de 1930 em sua casa em Sussex.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Há 110 anos nascia o homem que chocaria o mundo com um livro

Publicado no Terra em abril de 2009
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Ele escreveu muitas obras literárias entre poemas, críticas, contos e novelas, mas um livro de seus livros conseguiu chocar o mundo, chegando a ser banido em alguns países para só depois ser considerado um dos maiores clássicos da literatura inglesa. Estamos falando de Vladimir Nabokov, que nasceu há 110 anos, em 23 de abril de 1899, e sua obra máxima, Lolita.

Nabokov era filho de um político e jornalista de São Petersburgo, na Rússia, e teve uma infância rica e confortável. Desde pequeno falava três línguas, russo, inglês e francês. Depois da revolução comunista de 1917, a família foi transferida para a Criméia e depois para a Inglaterra, onde Vladimir passou a estudar. Finalmente os Nabokov se estabeleceram em Berlim, onde seu pai foi morto, em 1922, por monarquistas russos. Com a ascensão dos nazistas, Vladimir fugiu para a França e depois, em 1940, aportou em Nova York, onde se tornou professor de literatura em várias universidades, além de trabalhar com entomologia (estudo de insetos).

Lolita foi escrito em 1953 durante as viagens que fazia com sua mulher para pesquisar borboletas, mas o livro correu o risco de nunca ver a luz do dia. Primeiramente Nabokov tentou queimar a obra, mas foi impedido por sua mulher. Depois o problema foi conseguir publicar o livro, nenhum editor queria se responsabilizar por uma história tão bombástica.

O livro conta a história do professor Humbert Humbert que, por ter perdido o amor de Annabel Leigh na pré-adolescência tem uma fixação por meninas novas. Ao alugar um quarto na casa da viúva Charlotte Haze, fica de quatro ao conhecer sua filha de 12 anos, Dolores, também conhecida como Dolly, Lola, Lo, ou Lolita. Para não se afastar de seu objeto de desejo, ele acaba cedendo aos impulsos sexuais de Charlotte e casa-se com ela. Acontece que ele mantinha um diário com seus sentimentos e quando Charlotte descobre a verdade ameaça denunciá-lo, mas ela morre atropelada. É o início de um relacionamento entre padrasto e enteada, onde ele a seduz o tempo todo. Nesse drama ainda aparecem personagens mais pervertidos e sociopatas como o "tio" da menina, Clare Quilty. Com uma linguagem inovadora, muitos jogos de palavra e duplos sentidos, o livro traz uma observação ácida da cultura americana. E introduziu ao mundo duas palavras que passaram a significar sedutoras menores de idade: lolitas e ninfetas (até então, ninfas eram apenas figuras mitológicas).

Por dois anos nenhum editor americano quis se responsabilizar pelo lançamento da obra, foi só em 1955 que Lolita apareceu nas livrarias graças à editora Olympia Press, de Paris. Toda a primeira tiragem de 5.000 exemplares foi vendida rapidamente e dividiu opiniões. O escritor inglês Graham Green o considerou o melhor livro de 1955, enquanto o jornal Sunday Express, de Londres, o chamou de "pura pornografia descontrolada". Funcionários da alfândega americana não permitiam que cópias chegassem aos EUA. A França o baniu por dois anos e o editor da versão inglesa perdeu o emprego por tê-lo publicado nas terras da rainha.

Lolita não é uma propaganda a favor da pedofilia, que sim, é um crime seríssimo (veja os recentes casos de estupros infantis no Brasil). Na realidade, Nabokov coloca seus personagens como degenerados e problemáticos. Narrado em primeira pessoa, somos convidados a todo momento pelo professor Humbert a desculpá-lo por sua "doença". Já Clare Quilty é mostrado como pornógrafo e realmente pedófilo e o final mostra que todos se dão mal. Até mesmo a pequena Lolita.

A obra teve duas adaptações cinematográficas, uma em 1962, dirigida por Stanley "2001" Kubrick, e outra em 1997, por Adrian Lyne, que nos deu também a obra erótica-chique 9 ½ Semanas de Amor, em 1986.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Livro desvenda porres homéricos da história

Publicado no Terra em abril de 2009
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Tomar um porre é uma daquelas experiências bárbaras em que você fica mais descontraído, corajoso, criativo e atirado. A bebida pode lhe fazer dançar, "chegar junto" da menina mais gata do bar e ainda contar piadas escabrosas sem nenhuma vergonha. Por outro lado, você tende a ficar mais chato, escandaloso, geralmente terminando a noite enchendo o saco de quem está à sua volta, chamando-o de "meu melhor amigo".

O grande problema da bebida é que pouca gente consegue parar quando está chegando no limiar do inapropriado, mesmo porque quase ninguém sabe qual é o seu limite. Já foi provado que bebida não faz esquecer tristezas. Segundo cientistas japoneses, ela só reforça as memórias ruins. Por outro lado, pesquisadores noruegueses provaram que o consumo moderado de álcool, aliado a uma vida ativa e com exercícios físicos, faz você viver mais. Vai entender isso.

O pior, entretanto é o dia seguinte. Além da dor de cabeça, da língua peluda, e da incapacidade de se distinguir o que é direito e o que é esquerdo, o pobre bebum tem que ter enorme criatividade para justificar os vexames que deu na noite anterior. E existem inúmeras receitas para se evitar a ressaca, mas a verdade é que nenhuma vai funcionar se você "dobrou o cabo da boa esperança". O que vai curá-lo mesmo são o tempo e a ingestão de muito líquido (não alcoólico, diga-se de passagem).

Também é lenda que cada bebida dá uma ressaca diferente. Na realidade, os destilados são mais fortes que os fermentados e poderão causar mais estragos depois, mas tudo depende também do organismo de cada um. Em um divertidíssimo texto que circula na internet, atribuído ao cronista Luis Fernando Veríssimo, é mostrado o efeito de cada tipo de bebida no dia seguinte, com destaque ao licor de fios de ovos, cuja ressaca, segundo o autor, é o único caso de eutanásia permitido no Brasil.

E já que a bebida divide opiniões, mas é respeitada e celebrada por todos, o poeta e escritor Ulisses Tavares lança nesta próxima quarta-feira, na Livraria da vila, em São Paulo o livro HIC!STÓRIAS - Os maiores porres da história da humanidade. Em suas 271 páginas, Tavares mostra vários personagens históricos famosos por seu gosto por álcool e isso vai de textos bíblicos ao piloto Kimi Raikkonen, passando por Marco Antônio e Cleópatra, Walt Disney, Bukowski, Janis Joplin, Jim Morrison e muito mais. Para antecipar algumas histórias, o Terra conversou com o autor:

Terra - Por que escrever um livro sobre grandes bêbados?
Ulisses Tavares - A idéia surgiu há mais de dois anos quando estava assistindo aulas de história na PUC como ouvinte e a professora, ao contar a história de Cleópatra, colocou a embriaguez do romano Marco Antônio como um pequeno detalhe, enquanto na verdade ele pôs tudo a perder, inclusive a vida dele e da imperatriz, porque estava bêbado. Isso me inspirou para pesquisar e mostrar quantas pessoas na história antiga e contemporânea, mudaram toda sua vida porque estavam duas doses acima do normal.

Terra - E como escolher quem figura ou não em um livro desses?
Ulisses - Levei dois anos e meio pesquisando, com duas assistentes. O material que possuo é um absurdo, totalizando três estantes inteiras de dois metros de altura, fora as pesquisas na Biblioteca de Washington, internet e trocas de informação com outros historiadores. Na verdade, o resultado final ficou uma trilogia e não somente um livro. Tive que fazer uma seleção detalhada e também me atentar para o fato de que no Brasil, biografias são, absurdamente, passíveis de processos na justiça. E aí muita coisa teve que ficar de fora, especialmente brasileiros e estou aguardando a aprovação da nova Lei de Biografias para dar continuidade à coleção.

Terra - De todos os citados no livro, quem admira mais?
Ulisses - Seguramente Georges Simenon, o criador do Inspetor Maigret. Em mais de 50 anos de carreira, ele escreveu mais de 100 livros e transou com mais de 1000 mulheres. Sua rotina era simples: acordar, beber, escrever muito e ir para o bordel. É uma ótima vida!

Terra - A bebida lhe inspira a escrever?
Ulisses - Infelizmente não. Não consigo escrever se bebo e até já testei, mas não saiu nenhuma linha. Na verdade, invejo Hemingway, Bukowski e muitos outros por terem feito isso.

Terra - De todas as bebidas que existem, qual é aquela que traz a pior ressaca?
Ulisses - Pelas minhas pesquisas é o absinto, que é alucinógeno e sim pode causar loucura em quem toma, tanto que é proibidíssimo em vários países no mundo e somente a versão com uma redução drástica no teor alcoólico tem a venda permitida.

Terra - E o que podemos esperar do seu próximo livro?
Ulisses - Acabei agora de escrever um livro chamado Malucos por Deus, contando, desde a antiguidade a história de místicos que de repente enlouquecem e passam a se considerar emissários de Deus, Jesus Cristo ou coisa do gênero e promovem verdadeiros massacres em nome de sua fé distorcida.

Serviço: Hic!stórias - Os maiores porres da história da humanidade, de Ulisses Tavares, 272 páginas, Panda Books, R$35,90. Mais informações em http://ulissestavares.com.br/

terça-feira, 17 de março de 2009

HQs voltam à moda com adaptações cinematográficas

Publicado no Terra em março de 2009
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Em meados dos anos 80, os amantes de quadrinhos saíram do armário, já que finalmente suas paixões se tornaram moda. Foi a época do descobrimento dos grandes nomes do quadrinho inglês como Alan Moore e Neil Gaiman, da ascensão de Frank Miller, John Byrne e George Perez e do lançamento de Watchmen, O Cavaleiro das Trevas, Crise nas Infinitas Terras, entre outras obras. Agora, mais de 20 anos depois, vemos uma retomada com as muitas adaptações cinematográficas sérias e condizentes com as obras originais e um crescente interesse do público geral nessa forma de arte.

Em termos editoriais brasileiros, editoras como Panini e Conrad não fazem feio com seus lançamentos, seja na escolha de títulos, como na apresentação do material. Só neste mês de março, a Panini, subsidiária de um grupo editorial italiano, lançou em livrarias e bancas as edições de luxo de A Piada Mortal, obra maravilhosa de Moore e Brian Bolland, Watchmen - edição definitiva, vindo na carona do filme e obrigatória para iniciados ou não na arte, além de mais um volume da Biblioteca Histórica Marvel, com republicação das primeiras aventuras dos heróis Marvel, desta vez, focando no Demolidor (que usava então um ridículo uniforme amarelo).

A brasileira Conrad, que foi incorporada pela IBEP-Companhia Editora Nacional, traz Verão Índio, dos sensacionais italianos Hugo Pratt e Milo Manara, este último um dos reis dos quadrinhos adultos no mundo. Até mesmo a LP&M, uma das editoras que mais publicou HQs nos anos 80, volta com Valsa para Bashir, cuja adaptação em desenho animado ganhou o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro este ano.

Já na terra do Tio Sam, o sucesso das editoras está tão grande, que o tradicional jornal e formador de opinião New York Times resolveu lançar esta semana em seu site a lista das Graphic Books Best Seller, ou seja, as obras mais vendidas em narrativas gráficas ou graphic novels (termo cunhado pelo Deus dos quadrinhos, Will Eisner). Dividida em três categorias: hardcover (capa dura), softcover (capa cartão) e mangá, a lista será atualizada semanalmente. Nas hardcovers, o primeiríssimo lugar está com Starman Omnibus vol. 2, um catatau de 448 páginas com as aventuras de Jack Knight, filho do Starman original da DC Comics, herói famoso lá nos anos 40. Watchmen está em terceiro lugar e a morte de Batman (sim, o morcegão supostamente faleceu nas HQs) em quarto. Entre os softcores, Watchmen reina tranqüilo. Já os diversos volumes de Naruto, sobre o menino que quer se tornar o maior ninja místico de todos os tempos, ocupa quase todas as posições no Top Ten de mangás.

E a coisa não para por aí. Ainda este ano, veremos nas telas de cinema a adaptação da obra clássica do Deus dos quadrinhos, Will Eisner, The Spirit, dirigido pelo roteirista e desenhista de HQs Frank Miller, com um elenco estelar (Jaime King, Eva Mendes, Samuel L. Jackson, Scarlett Johansson, Paz Vega e Gabriel Macht no papel-título).

Dos quadrinhos japoneses, surgirá Dragonball Z, cujo roteiro assustou o autor do original que declarou, simpaticamente, que é para ser considerado um universo alternativo de seu personagem. O que todos querem ver mesmo é a aventura solo do X-Man mais querido de todos, Wolverine.

O filme, que estréia em 30 de abril no Brasil, é estrelado pelo sempre correto Hugh Jackman e aparentemente é baseado em duas HQs de sucesso: Origens, que mostra a infância e a descoberta de seus poderes e Arma X, com a explicação do esqueleto de adamantiun em seu corpo e porque o herói desconhece seu passado. Para quem gosta dos gibis, o filme promete um desfile de personagens mutantes na tela, como Gambit, Dente-de-Sabre, Deadpool e a sensualíssima, ora vilã, ora heroína, Emma Frost.

Já foram confirmadas as produções de Thor (dirigido por Kenneth Brannagh), Lanterna Verde, Alvo Humano, Fathon (provavelmente com a estonteante Megan Fox), Esquadrão Suicida (com um bando de vilões agindo em nome do governo americano), e ainda a continuação de Homem de Ferro e Homem-Aranha.

Se a idéia pegar no Brasil, bem que poderíamos ver as aventuras da Mônica e o Cebolinha adolescentes, um dos campeões de venda nas bancas em 2008, no cinema também? Se tudo o que Maurício de Souza toca vira ouro, bem que ele poderia vir com essa proposta, não é?

terça-feira, 10 de março de 2009

10 coisas para se aprender com Conde de Monte Cristo

Publicado no Terra em março de 2009
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A Jorge Zahar Editora lançou recentemente no Brasil a edição definitiva de uma das obras mais contundentes da literatura: O Conde de Monte Cristo. Escrito em forma de folhetim entre 1844 e 1846 por Alexandre Dumas, é uma das mais perfeitas histórias de vingança já apresentadas ao público, com o Conde magistralmente derrubando as pessoas que destruíram sua vida na mocidade.

A nova edição, com dois livros de cerca de 700 páginas cada, é inédita no Brasil, contém ainda 170 gravuras da época e mais de 500 notas explicativas. E não se assuste com o volume de páginas. Dumas, que nos brindou também com Os Três Mosqueteiros, escrevia o cidadão comum, por isso a linguagem não é tão rebuscada, nem mesmo cansativa, tornando-se difícil largar um livro desses. Após 165 anos de sua publicação, a obra-prima nos ensina muito sobre como agir para triunfar sobre todas as intempéries da vida, portanto atente para algumas lições do mestre:

1 - Não seja ingênuo. As pessoas não suportam seu sucesso e sua felicidade
Edmond Dantes, o personagem principal do livro, está para ser promovido a capitão de navio e noivo da bela Mercedes quando atrai a inveja de seus companheiros, que traçam um plano terrível para tirá-lo do caminho. Mesmo assim continua confiando nos crápulas. Na dia-a-dia, especialmente no ambiente de trabalho, fazer muito alarde de suas conquistas pode levar outras pessoas a tentar te derrubar. Confie nelas, mas sempre com um senso crítico apurado e um alerta para eventuais traições.

2 - Cuidado com as tramas que você se envolve
Ao parar na Ilha de Elba, atendendo ao pedido de seu moribundo capitão, o imediato Dantes se vê emaranhado numa intriga política envolvendo a volta ao poder de Napoleão Bonaparte. E, sem ter a mínima idéia do que está acontecendo, vai preso por isso. Pessoas tentam, diariamente, envolver os outros em intrigas e armações, especialmente na base das fofocas. Nesta hora, o melhor é não tomar partido e sair rapidinho de cena, porque seguramente a bomba pode estourar em suas mãos.

3 - Se alguém lhe estender a mão em um momento difícil, agarre-a
Preso na Ilha de IF, Edmond conhece o padre Faria, que lhe ensina matemática, filosofia, línguas estrangeiras e lhe prepara para seu futuro. Muitas vezes, são nos piores momentos que conhecemos nossos mentores de verdade, aqueles que vão nos mostrar nossas limitações e nos estruturar para sair da situação. Quando isso acontecer, aceite de bom grado e aprenda.

4 - Algumas oportunidades podem parecer boas demais, mas acredite nelas
O padre Faria era considerado um louco por divulgar que sabia da localização de um tesouro escondido numa ilha. Dantes resolve apostar na informação e fica rico ao fugir da prisão. Se alguém lhe confia uma informação muito valiosa, que pode lhe render frutos no futuro, pesquise sobre ela e corra atrás. Especialmente se essa pessoa lhe quer tanto bem, que passa a você a oportunidade de ser mais feliz.

5 - Recompense quem lhe ajudou
Já fora da prisão e ainda estruturando sua vida, Dantes ajuda anonimamente seu antigo patrão, o Sr. Morrel, livrando-o da bancarrota. Aqui é um dos sentidos para nossa vida: correr ao auxílio de quem sempre nos ajudou. E não esfregar essa ajuda na cara da pessoa.

6 - Relacione-se com os poderosos. De qualquer área, diga-se de passagem
Travestido como Conde de Monte Cristo, Edmond era influente tanto frente ao Papa em Roma, quanto com o rei dos bandoleiros italianos, Luigi Vampa. Dentro do local de trabalho é sempre bom ter boas relações com a direção, mas também com os boys, as secretárias, o chefe do almoxarifado e até com os faxineiros. O mesmo vale no seu prédio, não tratando o zelador e os porteiros como simples serviçais. Respeito, no final das contas, abre muitas portas e facilita a rotina diária.

7 - Às vezes é necessário armar situações para se aproximar de alguém
Em sua sede de vingança, o Conde manipula uma série de acontecimentos para travar contato com os seus alvos, ajudando os filhos destes ou outras pessoas de suas relações. Tanto na vida amorosa como na profissional, o ideal é fazer o mesmo. Entendendo quem é a pessoa que queremos falar, sabendo de seus hábitos e contatos, é fácil usar o networking para uma aproximação mais certeira e natural.

8 - Coma pelas beiradas
Informando-se sobre seus podres, Monte Cristo destrói seus inimigos fazendo com que eles enfrentassem sua própria maldade, evitando ao máximo confrontá-los diretamente. Na vida, enfiar o dedo no nariz de alguém falando o que consideramos ser a verdade, só vai nos trazer mais problemas e com certeza um inimigo. O melhor é ficar nas sombras.

9 - Tudo muda
Não vou entregar o final da história, mas as pessoas mudam com o tempo. Muitas delas para melhor. E o que nos era atraente há anos, agora pode não ser mais. Não viva do passado e amadureça.

10 - Hollywood destrói boas histórias
A adaptação feita para o cinema em 2002 com Jim Caviezel no papel principal deve ter feito Dumas virar no túmulo. Jogaram fora toda a sutileza, a trama bem construída e o cavalheirismo de cada personagem (no livro, Monte Cristo nunca apanha na prisão, por exemplo). Aliás, diga-se de passagem, nenhum dos filmes que leva o nome O Conde Monte Cristo é considerado bom. Sendo assim, prefira a obra escrita, seja nessa edição mais volumosa ou nas anteriores mais resumidas.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Conheça o melhor do humor cáustico

Publicado no Terra em janeiro de 2009
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O dia 29 de janeiro deveria ser proclamado Dia Mundial do Sarcasmo. Isso porque 1895 nascia no Rio Grande do Sul Apparício Torelly, o Barão de Itararé, grande pioneiro do humor político-social no Brasil. E no mesmo dia, mas há 53 anos, falecia o jornalista e satirista H.L Mencken, um dos críticos mais mordazes da sociedade americana.

H.L. Mencken
Comecemos pelo sensacional escritor gringo. Filho de um fabricante de charutos, Menckel começou a vida profissional como repórter no Baltimore Morning Herald, mudando-se logo depois para o The Baltimore Sun. Rapidamente passou a escrever os editoriais que o fizeram famoso. Influenciado pela ironia de Mark Twain e Ambrose Pierce, além de ser fã de Joseph Conrad e Frederick Nietsche, Mencken não poupava ninguém em seus artigos, sendo conhecido como um escritor politicamente incorreto e várias vezes acusado de ser racista e anti-semita. Na realidade, ele atacou duramente a ignorância ("Ninguém neste mundo, pelo menos pelo que sei, perdeu dinheiro subestimando a inteligência das grandes massas"), a intolerância ("Um misógino é um homem que odeia as mulheres da mesma maneira que elas odeiam umas às outras"), o cristianismo fundamentalista ("O cristianismo baseado no evangelho, como todos sabem, é fundamentado no ódio, enquanto o cristianismo de Cristo é baseado no amor") e os "Booboisie", sua palavra para denominar a ignorante classe média americana. Sua obra mais conhecida foi The American Language, um estudo em vários volumes sobre as diferenças do inglês nas diversas partes da América do Norte. Talvez suas convicções possam ser entendidas em uma de suas frases mais contundentes: eu acredito, mais do que qualquer coisa, que é melhor falar a verdade do que mentir, que é melhor ser livre do que ser escravo e é melhor saber do que ser ignorante.

Apparício Torelly
Já no Brasil, o gaúcho Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly era o narrador das mazelas do povo brasileiro, mas sempre com muito humor. Radicado no Rio de Janeiro, criou o jornal A Manha em 1926, brincando com outro veículo importante da época, o periódico A Manhã, onde trabalhou. Mesmo sendo um socialista, com sua irreverência incrível se intitulou Duque de Itararé em 1930, um herói da grande batalha que nunca houve, segundo ele. Mas semanas depois Torelly se rebaixou a Barão como prova de modéstia. Incansável perturbador de Getúlio Vargas ("O Estado Novo é o estado em que nos encontramos"), foi seqüestrado e espancado por oficiais da marinha em 1934 e a redação de seu jornal foi completamente destruída. Após reformar o jornal, mandou colocar na porta a tabuleta "Entre sem bater", utilizando sua desgraça como forma de escárnio. A Manha teve várias mortes e renascimentos até 1952, quando desapareceu definitivamente. Torelly foi eleito deputado pelo PCB do Rio de Janeiro com o sensacional slogan "Mais leite, mais água, mas menos água no leite ¿ Vote no Barão de Itararé, Apparício Torelly". Bricar com palavras e misturar crítica social com sabedoria popular foram suas marcas registradas. Entre suas definições mais famosas estão:
- Quem inventou o trabalho não tinha o que fazer
- Quando pobre come frango um dos dois está doente
- Um bom jornalista é um sujeito que esvazia totalmente a cabeça para o dono do jornal encher nababescamente a barriga
- O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato
- Mulher moderna calça as botas e bota as calças
- A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana
- O casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso
- A alma humana, como os bolsos da batina de padre, tem mistérios insondáveis
- O homem é um animal que pensa; a mulher, um animal que pensa o contrário. O homem é uma máquina que fala; a mulher é uma máquina que dá o que falar
O Barão de Itararé abriu caminho para futuros nomes do humor brasileiro como Stanislaw Ponte Preta, Millor, Jaguar, Luis Fernando Veríssimo e pode ser considerado o avô do pessoal do Casseta & Planeta.

Serviço:
Nas livrarias brasileiras é possível encontrar dois livros de Mencken: O Livro dos Insultos (Companhia das Letras) e O diário de H. L. Mencken (Bertrand Brasil).
Se quiser ler parte da obra de Apparício Torelli, comece por Almanhaque para 1949 (Edusp) e Máximas e Mínimas do Barão de Itararé (Editora Record).

O Consigliere recomenda os livros que você devia ter lido quando jovem

Publicado na revista VIP em maio de 2007

Como estai, belo? Desde que era un piccolo bambino, leio di tutti. E meu nono, il vecchio Renatão, era louco por romances de aventuras. Assim, fui entrando de cabeça nos grandes clássicos e aprendendo muita cosa, que posso hoje aplicar, por assim dizer, no meu ramo de atividade. Então, aqui está uma lista de livros para você consultar e, quem sabe, virar um uomo de verdade!


O Conde Monte Cristo de Alexandre Dumas: quer saber como montar uma verdadeira vendetta? Leia essa obra-prima. Nela, Edmond Dantes é um pobre coitado, traído pelos amicci, que vai preso, fica sabendo de um tesouro, escapa e volta a sua terra natal travestido de Conde. Aí, passa a destruir a vida de cada um dos seus adversários, mas sempre comendo pelas bordas, fazendo com que cada um se desgrace pela sua própria falta de caráter. Leia e per la Madonna, esqueça a porcaria de filme que fizeram em 2002.


O Caso dos 10 Negrinhos de Agatha Christie: se o seu caso é matar sem deixar vestígios este é seu livro. Dez pessoas são convidadas a ir para uma ilha e uma a uma vai sendo assassinada. Para os que sobrevivem (por pouco tempo, diga-se de passagem), só resta tentar saber os porquês. Quero ver você conseguir sacar a identidade do assassino. O melhor da grande escritora inglesa, numa narrativa surpreendente.


Histórias Extraordinárias de Edgar Allan Poe: aqui, amicci miei, o caso é sentir medo. Cada conto de Poe é uma surpresa aterrorizante. Ele empareda pessoas em O Gato Preto e O Barril de Amontillado; mostra gente tendo contato com seu pior lado em William Wilson; cria um detetive arguto e lógico em Os Crimes da Rua Morgue (anos antes de Sherlock Holmes) e mostra torturas horripilantes em O Poço e o Pêndulo. Você não vai dormir à noite.


O Gênio do Crime de João Carlos Marinho: o livro juvenil mais legal que já foi escrito. O escritor brasileiro conseguiu transformar um enredo envolvendo falsificação de figurinhas de jogadores de futebol numa verdadeira história policial com detetives, bandidos, torturas (ah, a cena do gato na tina de ácido me perseguiu por anos e hoje é tão inspiradora) e, é lógico, com heróis: a Turma do Gordo. Para ler e depois dar para seu sobrinho.

Vá bene! Corra para uma libreria, adquira um e leia na piscina, na cama ou até no banheiro. Mas se aquele amigo seu, que só lê coluna de esportes em jornal, disser que literatura é cosa de nerd, me avisa. Vou ter o piacere de apresentá-lo a mais uma obra: O Livro dos Mortos. Arrivederci.