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sábado, 14 de fevereiro de 2009

O Consigliere recomenda jazz para quem já cresceu

O Consigliere recomenda velhas canções com ritmos novos

Publicado na revista VIP em agosto de 2007

Sei que você, paisan, como um leitor da VIP, gosta de uma música mais sofisticada, mais bem estruturada (geralmente acompanhada de um bom vino). O problema é que sua goomah já prefere aqueles bate-estacas que tocam em danceteria e acham que o bom é o tecno, certo? Pois bem, este vecchio goodfella tem três ótimas soluções para aliar as duas coisas e deixar todo mundo feliz.


Verve Remixed: o selo Verve, fundado em 1956, e que abrigou grandes jazzistas como Stan Getz, Ellington, Peterson, Basie, entre outros, lançou em 2002, o projeto Verve Remixed, intercambiando vozes do jazz com música eletrônica. São três Cds fantásticos (e mais um quarto com a obra completa), que fazem até o mais ortodoxo fanático pelos clássicos cair na dança. Destaques para Speak Low com Billie Holiday cantando e remixado pelo grupo inglês Bent, Fever – a mais erótica canção já feita por um ser humano- com Adam Freeland, e vocal de Sarah Vaughan e ainda Peter Gunn com Mrs Vaughan e releitura de Max Sedgley, protegido de Fat Boy Slim .


Propellerheads: grupo eletrônico inglês cujo nome é uma gíria americana para nerd, surgiu em 1996 com DIVE!. Depois se juntaram a David Arnold, atual compositor dos filmes de James Bond, regravando o tema de 007 A Serviço de Sua Majestade no projeto Shaken and Stirrred (ótimo) e participaram da trilha de 007 O Amanhã Nunca Morre. A obra mais famosa desse grupo é Decksandrumsandrockandroll. Uma das faixas desse CD, Spybreak foi usada como trilha de fundo para a famosa cena do ataque ao lobby de um prédio no primeiro Matrix (ou como diria um amicco mio, a mais cara propaganda de óculos escuros já produzida). E o que eles tem a ver com jazz? Ouça History Repeating com vocais da Dame Shirley Bassey (aquela de Goldfinger) e você saberá.


Gotan Project: trio formado por um argentino, um francês e um suíço, são um dos maiores expoentes do tango eletrônico. Sim, bello, os caras conseguiram pegar um ritmo quadrado como o tango, manter elementos esseciais como o acordeon e dar uma batida mais moderna e muito envolvente. Entre 2000 e 2006, lançaram 5 Cds, mas os dois mais famosos são La Revancha del Tango e Lunático. Participaram também do Verve Remixed, numa regravação de Whatever Lola Wants com, ela de novo, Sarah Vaughan. É um trabalho tão bem feito que você tem a nítida impressão que a (já falecida) diva americana propositalmente gravou um tanguito no século 21.


Mas se, mesmo assim, aquele famoso amicco seu disser que bom mesmo é Pet Shop Boys, você já sabe. Fala comigo. Garanto que ele vai curtir bate-estaca. Amarrado a um. Ciao.


O Consigliere recomenda o verdadeiro pequeno notável

Publicado na revista VIP em julho de 2007

Como estai, paisan? Mio fratello, Mauro, me recomendou uma pelicolla muito louca, chamada “Uma Vida Iluminada e um dos personagens principais é um cachorro chamado Sammy Davis Júnior Jr. Daí me deu a inspiração de escrever sobre o artista que foi, na minha piccola opinão, o maior entertainer que a América já viu.


Baixinho, feio (perdeu um olho em um acidente de carro) e magérrimo, Sammy Davis Junior fazia de tudo: cantava, dançava, imitava e fazia rir.Fez parte do Rat Pack, grupo fundado por Frank Sinatra no qual faziam parte Dean “Dino” Martin, Peter Lawford e Joey Bishop. Grande defensor dos direitos humanos, Sammy foi atacado por ter se convertido ao judaísmo em 1954 (a comunidade judaica, na época, não o aceitava bem) e depois por ter se casado com uma loira sueca (não sendo aceito, desta vez, pela comunidade negra). Mesmo assim, brincava com sua condição de minoria, sempre zombando de si mesmo. Em um dos seus shows se colocava como alguém que esvaziava um bairro, quando se mudava, por ser negro, judeu e filho de latina. Sammy se foi em 1990, vítima de um câncer na garganta, mas você pode aproveitar para conhecer mais do seu trabalho conferindo a seleção abaixo:


EM DVD: Onze Homens e um Segredo (1960): a versão de George Clooney é muito boa, mas a original tem um dos finais mais sacanas e surpreendentes que já puseram num filme. Todo Rat Pack está lá, como ex-parceiros de guerra que se juntam para roubar TODOS os cassinos de Las Vegas em uma noite.


Em CD importado: At The Coconut Grove (1963): incrível show gravado no Ambassador Hotel em Los Angeles onde Sammy vai se soltando até levar o espetáculo a um frenesi. É de dobrar de rir os sketches onde ele fala de sua visita à Casa Branca para conhecer JFK e do seu sonho de ser d'Artagnan, além, é lógico, de sua habilidade vocal.


Em CD & DVD (pacote): Live & Swingin: lançado em 2003 pela Warner Music no Brasil, esse show de 1965 reunia Sinatra, Dino, Sammy e Johnny Carson em prol da instituição beneficente Dismas House. Veja a versatilidade do baixinho cantando acompanhado só de um bongô, imitando Astaire, Nat King Cole, Louis Armstrong, Dean Martin e Jerry Lewis e ensinando a platéia a dançar.


Ecco, só não me pergunte porque o canne se chamava Sammy Davis Junior Jr, ......ele nem cantava, nem dançava. Mas se aquele amigo seu, que se emociona com Ivete Sangalo, achar que tudo isso é coisa para velho, me escreva. Eu e meus associados vamos lhe poupar o trabalho e garantir que ele não chegue na velhice. Ciao, bello.


O Consigliere recomenda os verdadeiros filmes de macho

Publicado na revista VIP em junho de 2007

Tutti uommini gosta de bangue-bangue. É um gênero que passou por muitas fases. No começo, tudo era limpo, da roupa às cidades e o cowboy amava mais seu cavalo que a mocinha. Depois veio o faroeste dramático dos anos 50. Aí, lá pela década de 60, entraram os italianos - quem mais? - e fizeram filmes sujos, com personagens dúbios. E influenciaram os americanos! Então esqueça aquela sessão antiga de TV que passava só o pior do western spaguetti e alugue já os filmes abaixo:


Matar ou morrer (1952) e Os brutos também amam (1953): dois grandes exemplos do faroeste com enormes cargas de drama. No primeiro, um xerife tem que enfrentar um bando, sozinho, já que a cidade que ele protege o abandona. No segundo, um pistoleiro vai trabalhar numa fazenda e vira modelo de homem para o filho do dono da casa, para o desespero do pai. As cenas finais das duas pellicoli são memoráveis.


Três homens em conflito (1966): Sérgio Leone foi o grande Don do faroeste. Tirou um rapazinho do anonimato e fez dele uma estrela. Sim, Clint Eastwood. Nesta pelicola ele é o “bom” (que devia se chamar o menos FDP), Elli Walach é o feio e o saudoso Lee Van Cliff faz os olhos de anjo, o mau. Da trilha sonora espetacular de Enio Morricone (você conhece o tema) ao duelo entre os 3 homens, cada cena é uma obra de arte. Procure nas importadoras a edição especial com 20 minutos a mais de filme. Vale cada dólar furado.


Era uma vez no oeste (1968): mais um Leone com um elenco fenomenal: Jason Robards, Charles Bronson, Claudia Cardinalle e Henry Fonda, no único papel de vilão que fez em toda sua carreira. A seqüência inicial, praticamente muda, é um incrível trabalho de cinematografia. Os diálogos, depois, os mais cáusticos possíveis. E o velho Fonda mostra o quão inescrupuloso pode ser um uommo. Belíssimo.


Sete Homens e um destino (1960): baseado em Os 7 Samurais de Kurosawa, é o grande filme sobre a decadência do pistoleiro. Eles são mais baratos que armas diz Yull Brinner numa passagem memorável. O grande barato é que a maioria dos atores que trabalha nessa pellicola havia visto o original japonês e queria a todo custo trabalhar na versão americana. E você nota essa dedicação, assistindo a interpretações fantásticas. Imperdível.


Meu ódio será tua herança (1969): Sam Peckinpah, o diretor, foi considerado o maestro da violência . Foi o grande inventor da cena de tiro em câmera lenta. Neste épico, um grupo de bandidos americanos foge para o México e se envolve com um general renegado. E aí, eles têm a chance de fazer a única coisa decente em suas vidas. Preste atenção na primeira cena e seqüência final e veja a amarração. Mamma mia, que gênio.


Veja também Por um punhado de dólares (1964), Por alguns dólares a mais (1965), Duelo ao Sol (1946), O homem que matou o facínora (1962) e os Profissionais (1966). Mas se aquele amigo seu que acha que faroeste de verdade é Brokeback Mountain, reclamar das sugestões, bem paisán, il cinema e il mondo hanno cambiato. Fazer o que? Ciao, belo.


O Consigliere recomenda os livros que você devia ter lido quando jovem

Publicado na revista VIP em maio de 2007

Como estai, belo? Desde que era un piccolo bambino, leio di tutti. E meu nono, il vecchio Renatão, era louco por romances de aventuras. Assim, fui entrando de cabeça nos grandes clássicos e aprendendo muita cosa, que posso hoje aplicar, por assim dizer, no meu ramo de atividade. Então, aqui está uma lista de livros para você consultar e, quem sabe, virar um uomo de verdade!


O Conde Monte Cristo de Alexandre Dumas: quer saber como montar uma verdadeira vendetta? Leia essa obra-prima. Nela, Edmond Dantes é um pobre coitado, traído pelos amicci, que vai preso, fica sabendo de um tesouro, escapa e volta a sua terra natal travestido de Conde. Aí, passa a destruir a vida de cada um dos seus adversários, mas sempre comendo pelas bordas, fazendo com que cada um se desgrace pela sua própria falta de caráter. Leia e per la Madonna, esqueça a porcaria de filme que fizeram em 2002.


O Caso dos 10 Negrinhos de Agatha Christie: se o seu caso é matar sem deixar vestígios este é seu livro. Dez pessoas são convidadas a ir para uma ilha e uma a uma vai sendo assassinada. Para os que sobrevivem (por pouco tempo, diga-se de passagem), só resta tentar saber os porquês. Quero ver você conseguir sacar a identidade do assassino. O melhor da grande escritora inglesa, numa narrativa surpreendente.


Histórias Extraordinárias de Edgar Allan Poe: aqui, amicci miei, o caso é sentir medo. Cada conto de Poe é uma surpresa aterrorizante. Ele empareda pessoas em O Gato Preto e O Barril de Amontillado; mostra gente tendo contato com seu pior lado em William Wilson; cria um detetive arguto e lógico em Os Crimes da Rua Morgue (anos antes de Sherlock Holmes) e mostra torturas horripilantes em O Poço e o Pêndulo. Você não vai dormir à noite.


O Gênio do Crime de João Carlos Marinho: o livro juvenil mais legal que já foi escrito. O escritor brasileiro conseguiu transformar um enredo envolvendo falsificação de figurinhas de jogadores de futebol numa verdadeira história policial com detetives, bandidos, torturas (ah, a cena do gato na tina de ácido me perseguiu por anos e hoje é tão inspiradora) e, é lógico, com heróis: a Turma do Gordo. Para ler e depois dar para seu sobrinho.

Vá bene! Corra para uma libreria, adquira um e leia na piscina, na cama ou até no banheiro. Mas se aquele amigo seu, que só lê coluna de esportes em jornal, disser que literatura é cosa de nerd, me avisa. Vou ter o piacere de apresentá-lo a mais uma obra: O Livro dos Mortos. Arrivederci.


O Consigliere recomenda filmes para quem quer justiça

Publicado em abril 2007 na revista VIP

Ciao, belo! Apesar da minha famiglia ter, por assim dizer, “ótimas” relações com o sistema judiciário, já estou ficando cansado de tanto ouvir sobre impunidade neste paese! É tanta máfia para cá, máfia para lá, que estamos pensando em cobrar royalties! E aí, para ver justiça ser feita de verdade, nada como uma vecchia peliccola americana de julgamento onde juízes são imparciais, bandidos são presos e os advogados são idealistas. Confira a lista e quero ver você gritar “Objeção”!


Testemunha de acusação (1957): Uma receita melhor que o raviolli que meu nono fazia. Junte texto de Agatha Christie com a direção de Billy Wilder e adicione atuações soberbas de Charles Laughton, Tyrone Power e Marlene Dietrich e se delicie. Quer mais? Uma das melhores frases de todos os tempos está no finalzinho do filme! Só não posso contar porque estraga o desfecho da pelicolla. Assista e confira!


Doze Homens e uma Sentença (1957): uma verdadeira obra-prima mostrando o confronto dos jurados em um julgamento de assassinato. Um clássico que ensina a enxergar uma situação por fora da caixa e não aceitar fatos simplesmente da maneira que são postos na nossa frente. Todas as provas contra o acusado vão sendo minuciosamente analisadas por um insistente Henry Fonda para desgosto dos outros jurados, cada um representando um extrato social (o publicitário, o racista, o velho, o imigrante, o operário etc.), num jogo fabuloso. Destaque também para a interpretação de Lee J. Cobb como o grande antagonista de Fonda. Júris podem ser considerados como entidades impessoais. Cada jurado, porém, é uma PESSOA, cheia de preconceitos. Teve uma (boa) refilmagem em 1997 com atualização do roteiro feita pelo próprio autor do original.


Anatomia de um crime (1959): O sempre genial e polêmico Otto Premminger dirige James Stewart, Ben Gazzarra, Lee Remick (ragazza belíssima) e George C. Scott, no caso de um militar acusado de matar o estuprador de sua mulher. A questão é até que ponto tudo aquilo era verdade? A trilha sonora, de Duke Ellington, ganhou o Grammy naquele ano e é considerado, por muitos, como o melhor filme de julgamento já feito.


Julgamento em Nuremberg (1961): Stanley Kramer teve a coragem de discutir nazismo e suas repercussões contando a história do julgamento de juízes boches que condenavam judeus a torto e a direito. O processo, entretanto, se torna uma batalha entre a retórica nazista do avvocato de defesa e o discurso americanófilo da acusação. O discurso sobre culpa do Presidente da Suprema Corte alemã, interpretado por Burt Lancaster (“Onde nós estávamos quando nossos vizinhos eram levados á noite?) e as considerações finais do juiz americano magistralmente feito por Spencer Tracy (“Um país não é um pedaço de rocha. É uma extensão de nós mesmos. Daquilo que acreditamos e sustetamos”) são perfeitas aulas de cidadania. E explicam muito o que acontece neste caótico paese que vivemos e no mundo de hoje.


O Sol é para Todos (1962): Harper Lee, aquela que acompanhou Truman Capote na investigação dos assassinatos de uma família do meio-oeste americano (e gerou o grande livro A Sangue Frio) é a autora de uma das maiores obras da literatura estaduniense. A transposição para as telas não ficou nada a dever para o livro. Um julgamento envolvendo racismo e intolerância, do ponto de vista de três bambini é um daqueles clássicos para se ver mais de uma vez. E mais, Atticus Finch, o avvocato interpretado por Gregory Peck, foi escolhido o maior herói do cinema de todos os tempos pelo American Film Institute. E é o primeiro filme de um dos meus grandes ídolos (e eterno consiglieri dos Corleone), Robert Duvall.


Ecco! Mas se aquele amigo seu, que adora a série Todo Mundo em Pânico, reclamar que os filmes são todos em preto-e-branco, me avise. Meus associados vão acrescentar mais uma cor: vermelho-sangue. Arrivederci!