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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

10 coisas para se comemorar em 2011

Publicado no site da revista Alfa em dezembro de 2010

2011 vem aí!  O ano das continuações com Piratas do Caribe IV, Velozes e Furiosos 5, Transformers 3, Crepúsculo 4, Harry Potter 7, Se Beber Não Case II, Pânico IV e muito mais. É o ano das HQs, já que teremos Thor, Capitão América, Cowboys & Aliens, Besouro Verde, X-Men First Class, Lanterna Verde e talvez, muito difícil dizer, mais um filme de Wolverine, agora no Japão. Acontece que para os amantes dos filmes clássicos e da história do cinema, 2011 é um ano com muita coisa para se comemorar e falarmos aqui nesse blog, confira:

100 anos de Winsor McCay e seus “desenhos que se mexem”: este foi o cartunista que resolveu investir o que tinha para criar uma indústria, a do desenho animado. Seus trabalhos com Gertie, o dinossauro e Little Nemo, se movendo, inspiraram, anos mais tarde, um rapazinho chamado Walt Disney.

90 anos de O Garoto: o filme genial de Chaplin, que fez platéias se debulharem em lágrimas e cuja consequência com o ator mirim Jackie Cougan gerou uma lei nos Estados Unidos.

80 anos do terror: em 1931 tivemos o genial filme alemão M, O Vampiro de Düsseldorf de Fritz Lang (que depois fugiria para os Estados Unidos), Frankenstein (com Boris Karloff), Drácula (aquele que estreou o fraque no personagem, com Bela Lugosi) e O Médico e o Monstro com Frederick March. Também foi o ano em que James Cagney iniciou sua carreira como o maior personificador de gângsteres do cinema no filme Inimigo Público.

70 anos de cinismo: foi em 1941 que Orson Welles criou o considerado melhor filme da história do cinema, Cidadão Kane, e se tornou o inimigo número 1 do magnata William Randolph Heart. Além disso, temos Relíquia Macabra, o melhor policial noir já produzido, que mostrava um detetive para lá de durão, Sam Spade, interpretado por Humphrey Bogart.

60 anos do drama: Marlon Brando grita “Stella!” e impressiona as platéias de todo o mundo com sua interpretação visceral de Kowalski em Uma Rua Chamada Pecado. Enquanto isso, uma ficção científica, O Dia em que a Terra Parou, se torna um tocante libelo anti-guerra e o diretor George Stevens nos dá o drama Um Lugar ao Sol, com Montgomery Cliff e Liz Taylor, sobre um homem que não mede esforços para se tornar rico e bem-sucedido.

50 anos de amor e ódio: em 1961, Audrey encanta a todos com sua Holly Golightly, a garota de programa boazinha, em Bonequinha de Luxo e vemos um Romeu americano e uma Julieta portoriquenha no Bronx com Amor, Sublime Amor. Por outro lado, a Segunda Guerra ganha visões distintas em duas produções, a aventura heróica de Os Canhões de Navarone e o drama com os horrores do nazismo em Julgamento em Nuremberg.

40 anos da psicodelia: dois filmes, completamente distintos em temática, mas igualmente loucos no visual, fazem aniversário, Laranja Mecânica de Kubrik e a primeira versão de A Fantástica Fábrica de Chocolate. 1971 também marca o aparecimento de dois policiais durões, o Dirty Harry de Clint Eastwood em Perseguidor Implacável e o “Popeye” Doyle de Gene Hackman em Operação França.

30 anos de aventura: em 1981, George Lucas e Steven Spielberg se inspiraram nos cinesseriados que viam quando criança para nos dar Os Caçadores da Arca Perdida. Já Sam Raimi cria o genial A Morte do Demônio, o mestre dos efeitos especiais dos anos 50 e 60, Ray Harryhausen, enche a tela de bichos mitológicos com Fúria de Titãs, John Carpenter transforma Manhattan em uma prisão em Fuga de Nova York e John Boorman faz a mais hippie das adaptações da lenda do Rei Arthur com Excalibur.

20 anos de maldades fascinantes: como não se encantar com um psicopata interpretado magistralmente por Anthony Hopkins em O Silêncio dos Inocentes? Ou ainda ver uma fera de coração se tornar um cara gentil com a primeira animação a concorrer no Oscar como Melhor Filme, o genial A Bela e a Fera? E ainda rir muito com o humor negro de A Família Adams? Ou ver Arnold Schwarzenegger enfrentar um robô mais terrível que ele em O Exterminador do Futuro II? Foi o ano em que vilões se tornaram heróis.

10 anos de épicos: 2001 foi o ano que duas coisas ditas impossíveis de acontecer, aconteceram: os EUA foram atacados e Peter Jackson conseguiu filmar O Senhor dos Anéis com perfeição. Além disso, fomos apresentados para um bruxo que se tornaria uma febre e deixaria a Warner sorrindo de orelha em orelha, com Harry Potter e a Pedra Filosofal. Foi nesse ano também que conhecemos o macho perfeito em Shrek e a dupla perfeita em Monstros S.A.

Tem muito mais em 2011!

A todos, uma grande passagem de ano.

Marlene Dietrich, a musa que se reinventava

Publicado no site da revista Alfa em dezembro de 2010
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“Eu não sou uma atriz – sou uma personalidade”. Era assim que Marie Magdelene Dietrich von Losch, a Marlene Dietrich se definia. A sex symbol dos anos 30 a 50 não gostava de trabalhar em filmes, mas foi graças a eles que sua persona foi construída e ela passou a ser um mito.


Nascida a 27 de dezembro de 1901 em Berlin-Schöneberg, na Alemanha, Marlene estudou violino, teatro e poesia quando adolescente. Ainda no meio artístico, estreou nas telas, ainda no cinema mudo, com So Sind Männer de 1922, mas a fama mesmo só viria oito anos depois com O Anjo Azul, que a tornou um símbolo sexual e o sinônimo de mulher fatal. No filme, Marlene interpreta Lola-Lola, uma cantora de cabaré causa a decadência de um sério e respeitado professor.
O sucesso do filme levou ela e seu diretor, Josef von Sternberg, para Hollywood, onde acabou contratada pela Paramount, que queria ter sua européia sensual para combater Greta Garbo da MGM. A dupla (que se tornou amantes) realizou uma série de filmes de sucesso juntos. E Sternberg usava recursos de luz e tomadas de câmera para tornar sua atriz favorita cada vez mais próxima da imagem da femme fatale. Quando o diretor foi dispensado pelo estúdio a carreira de Dietrich entrou em decadência e em 1937 ela, junto a outros atores e atrizes, entraram na chamada lista de envenenadores de bilheterias. Acontece que Marlene não era de desistir.

Foi em 1939 que ela resolveu sair dos papéis de prostitutas e mulheres sexy para encarar um western, Atire a Primeira Pedra e com isso conseguiu voltar ao topo e se reinventar pela primeira vez. Neste mesmo ano, ganhou a cidadania americana e começou uma forte campanha anti-nazismo que imperava na sua terra natal. Ela foi uma das primeiras atrizes a vender bônus de guerra e foi a que mais viajou para o front de batalha para animar os soldados. Isso levou-a a receber Medalha Presidencial da Liberdade dos EUA e a Legião de Honra da França.

Acabada a II Guerra, a atriz resolveu investir em sua carreira de cantora. Contratada pela Columbia Records tornou-se um sucesso com suas gravações solo ou em dupla com Rosemary Clooney (a tia de George Clooney). Isso fez com que trabalhasse em poucos filmes nos anos 50 e 60, mas estrelou produções dirigidas por grandes mestres como Stanley Kramer (no ótimo Julgamento em Nuremberg), Orson Welles (no clássico A Marca da Maldade), com Hitchcock em Pavor nos Bastidores e Billy Wilder em Testemunha de Acusação. Por este filme, Dietrich iria receber sua segunda indicação ao Oscar e provavelmente ganharia já que no meio da obra ela se “disfarça” como uma inglesa pobre, mudando voz e sotaque. O problema é que rolou um boato na época que na cena em questão, ela havia sido substituída por outra atriz e acabaram tirando-a da nomeação.

Entre os anos 50 e 70, Marlene foi uma rainha dos palcos sempre ao lado do compositor Burt Bacharach. Este sabia criar arranjos que ocultavam algumas limitações vocais de Dietrich. O grande sucesso levou-a a contratos milionários em Las Vegas e a quebrar um tabu e cantar em alemão em Israel, sendo ovacionado por isso. Acontece que foi essa carreira musical que trouxe a ela o abuso do álcool e o vício em analgésicos. Sua carreira terminou em 1975, depois de quebrar a perna em uma apresentação em Sidney. Ela passou os próximos anos de sua vida em seu apartamento em Paris, fazendo raríssimas aparições, mas conversava constantemente com o presidente americano Ronald Reagan e com o russo Gorbatchev. Faleceu em 1992 de falência renal.

Marlene Dietrich foi um símbolo sexual imbatível. Graças à sua mania de se vestir com roupas masculinas foi taxada de bissexual e chegou a afirmar que sexo é muito melhor com uma mulher, mas ninguém consegue conviver com uma. Teve casos com várias personalidades como James Stewart (ela chegou a afirmar que ele a engravidou), Yul Brinner, Jean Gabin, George Bernard Shaw e se gabava por ter transado com três Kennedys: o patriarca Joseph P. Kennedy e os filhos Joseph Kennedy Jr. e o mais famoso deles JFK. E tudo isso casada no papel com o mesmo homem a vida toda e sustentando a ele e à sua amante. Na cultura pop, é uma das pessoas que aparece na montagem da capa “Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, é citada por Madonna em “Vogue”, virou um documentário nas mãos do ator Maximilliam Shell e foi homenageada pela famosíssima marca de canetas Mont Blanc com uma edição especial com a presilha em forma de gravata e uma safira azul incrustada no corpo. Por essas e outras que Marlene Dietrich é o nono lugar na lista de 50 lendas do cinema, eleita pelo American Film Institute.

O pior filme de natal de todos os tempos

Publicado no site da revista Alfa em dezembro de 2010
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Sabe aquele filme que é tão ruim, mas tão ruim, que fica divertido? Santa Claus Conquers the Martians (Papai Noel Conquista os Marcianos) consta em todas as listas dos piores filmes já realizados e se tornou um clássico cult. Ele pode ser uma saída para você fugir dos filmes natalinos melosos que passarão neste fim-de-semana e tentar dar boas risadas.

A epopéia da produção deste filme começa em 1964 quando o Los Angeles Times já prenunciava o que vinha por aí com a seguinte nota: “Santa Claus Conquers the Martians! Não Ria. Alguém está fazendo um filme com esse nome”. Este alguém era Paul Jacobson, um cara que trabalhou nos bastidores de apenas um episódio do programa de TV Howdy Doody e queria trilhar um caminho em Hollywood.  Para isso, pensou que um filme com Papai Noel no título e ainda por cima ficção científica seria um sucesso absoluto e conseguiu convencer uma série de investidores particulares, levantando a boa soma de US$ 200.000 (o mesmo budget do sensacional Por um Punhado de Dólares, feito no mesmo ano, e que hoje seria o equivalente a 1,4 milhão de dólares). Jacobson alugou um hangar abandonado em Long Island, contratou alguns atores que atuavam como extras em uma produção de Oliver! na Broadway, vários técnicos de emissoras de TV e pôs-se a redigir o criativo roteiro, que ainda passou para as mãos do “escritor” Glenville Mareth para ser “melhorado”.


Na história, Marte é um planeta onde não há alegria e as crianças tem mente de adultos, e ficam assistindo programas de TV terráqueos. Para tentar alegrar a meninada, os marcianos decidem sequestrar Papai Noel no Polo Norte, e ainda levam duas crianças da Terra junto, para não deixar testemunhas. No planeta vermelho, Santa ganha uma fábrica de brinquedos automatizada e tem que enfrentar um marciano  do mal. 

Obviamente que juntar um bando de gente inexperiente, tanto na frente como atrás das câmeras, não conseguiria fazer nada tão bom, mas o filme é um primor em interpretações horrorosas, diálogos constrangedores,  personagens caricatos, cenários que fazem com que os do programa Chaves possam ser considerados obras de arte e efeitos especiais que você pode fazer na sua própria casa (e muito mais bem feito). Os destaques nesse quesito, aliás, vão para o terrível robô Torg utilizado pelos marcianos para conseguir capturar Papai Noel e para o cara vestido de urso polar atacando as crianças, tão tosco que só falta a etiqueta da fantasia ficar visível.
Filme feito, Jacobson conseguiu o apoio do filantropo Joseph E. Levine para distribuir o filme através de sua Levine´s Embassy Pictures.  O filme estreou em 100 salas de cinema em Chicago e Milwaukee em novembro de 1964, mas somente nas matinês de sábado e domingo. Para atrair a criançada eram oferecidos balões e brinquedinhos espaciais. Além disso, foram feitas divulgação maciça na mídia e até mesmo a canção tema, a horrenda “Hooray for Santa Claus” , virou disquinho. Inacreditavelmente o filme deu lucro e a Levine´s Embassy Pictures (que mudou o nome para Avco Embassy) acabou relançando o filme anualmente, sempre na época do Natal.

No mundo da cultura pop, o filme é um marco. Foi a primeira aparição da  quase atriz/cantora/sex symbol Pia Zadora, então com 10 anos de idade. Se você não sabe quem é ela, Pia foi a única pessoa no mundo que conseguiu ganhar um Globo de Ouro e um Razzie (o prêmio para a pior interpretação do ano) por sua participação em Butterfly de 1982. Isso causou um tremendo constrangimento para o pessoal  que organiza o Globo de Ouro, inclusive com questionamentos sobre a seriedade da premiação. Para completar, no ano seguinte, ela ganhou outro Razzie por The Lonely Ladie. Como cantora, concorreu a um Grammy em 1984 pela música “Rock it Out” (perdeu para Tina Turner) e nos anos 1990 abriu shows em Las Vegas para Frank Sinatra e Tony Bennet. O ator Victor Stiles, que interpreta o menino Billy (sempre tem um Billy, não se esqueça), nunca mais apareceu nas telas de cinema de novo. Deve ser de vergonha.
O filme foi resgatado nos anos 1990 e, inacreditavelmente, acabou virando peça de teatro, um musical, um livro (com o DVD)e foi ridicularizado até mesmo no programa Hermes e Renato da MTV, onde o bom velhinho se torna um traficante. E agora meu presente de Natal para você: Santa Claus Conquers the Martians é considerado de domínio público nos Estados Unidos e portanto o download do filme é permitido. Você consegue encontrá-lo aqui. Assim não perca tempo e prepare já a sua cópia para encantar a família na noite feliz.

Bom Natal e bom divertimento!

Ava, o mais belo animal do mundo

Publicado no site da revista Alfa em dezembro de 2010
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Ela fez com que o milionário excêntrico Howard Hughes ficasse loucamente apaixonado, Frank Sinatra sofreu como um cão por sua causa, namorou um toureiro, casou-se três vezes e faria 88 anos em 24 de dezembro. Ava Gardner era tão deslumbrante que o poeta Jean Cocteau a definiu como o mais belo animal do mundo.


Ava Lavinia Gardner foi criada em uma pequena fazenda de algodão e tabaco na Carolina do Norte, com ascendência irlandesa, inglesa e indígena. Ela foi descoberta aos 19 anos de idade quando seu cunhado, o fotógrafo Larry Tahr, resolveu fazer um ensaio amador e, contente com o resultado, expôs na vitrine de sua loja na 5a. Avenida em Nova York. Foi o bastante para um olheiro da MGM se encantar e contratá-la, com uma condição: ela devia fazer curso de dicção para perder o sotaque caipira sulino que carregava. Sua primeira aparição foi em A Sombra dos Acusados de 1941, mas só ganhou um papel de destaque com Os Assassinos de 1946. Conseguindo um lugar ao sol em Hollywood, acabou candidata ao Oscar de melhor atriz em 1956 com Mogambo, onde contracenou com o galã Clark Gable, que, segundo suas memórias, tirou uma casquinha da beldade. Entre as décadas de 1950 e 1970 apareceu em grandes filmes, sempre ao lado de símbolos sexuais masculinos como A Condessa Descalça (com Humphrey Bogart), E agora Brilha o Sol (com Tyrone Power), A Hora Final (com Gregory Peck) e no filme-catástrofe Terremoto de 1974 (com Charlton Heston), onde dispensou dublês .
O forte de sua biografia, porém foi sua turbulenta vida amorosa. Aos 19 anos de idade, casou-se com o ator “quase mirim” Mickey Rooney, então com 21. Rooney era, na época, um dos maiores astros da MGM graças aos seus filmes bobos que fazia ao lado de Judy Garland na cinessérie Andy Hardy e obviamente encantou a jovem Ava. O casório durou apenas um ano porque os dois brigavam demais. Anos depois, quando Rooney contou com bastante entusiasmo sobre sua vida sexual com Gardner, ela se limitou a dizer “bom, querido, você pode ter aproveitado o sexo, mas Deus sabe como eu não”.

Em meados dos anos de 1940 ela conheceu o multimilionário Howard Hughes e começou uma amizade que durou até 1955, ano que ele se escondeu do mundo. Muito se especula se os dois tiveram ou não um tórrido romance. Ela sempre negou e afirmou que  máximo que chegaram foi num beijo no rosto, mas é sabido que ele era louco por ela e morria de ciúmes, chegando a socá-la em uma ocasião e deixá-la com o rosto marcado. Tempos depois, a atriz acabou perdoando Hughes e se tornou seu “ombro amigo” para os momentos em que ele precisava desabafar.

Seu outro casamento de curta duração foi com o band leader Artie Shaw, que conheceu nas filmagens de Os Assassinos. Culto, bonito e talentoso, Shaw a conquistou pela sua inteligência e durante os oito meses de namoro, ela , durona pacas, proibiu sexo (imagine o que isso era para ele). Casaram-se em 1945, mas a coisa deu muito errado. O jazzista era extremamente possessivo e se irritava com a cultura limitada de Ava, forçando-a a estudar música, literatura, política etc. Depois de um ano, ele pediu o divórcio.
Seu terceiro casamento, o mais famoso de todos, foi com Frank Sinatra. O cantor a conheceu quando ela ainda estava casada com Mickey Rooney e anos depois, mais especificamente em 1949, os dois começaram uma amizade. Sinatra estava em franca decadência, artística, emocional e financeira, enquanto Gardner subia nos degraus da fama. Mesmo assim, os dois se apaixonaram e tiveram um caso. Logo, o cantor se separou da esposa, Nancy, para se casar com a atriz em 1951, sendo massacrado pelas duas maiores colunistas de fofocas da época, Hedda Hopper e Louella Parsons e pela Igreja Católica. O divórcio faliu Sinatra e ele passou a depender mais e mais de Gardner. O grande problema era seu ciúme exagerado (brigava por causa de Hugues e Shaw) e, como todo bom italiano, queria mais uma mulher que lavasse e cozinhasse e isso foi o bastante para Gardner o abandonar, mudar para a Espanha e se separar definitivamente em 1957. Sinatra passou um ano bebendo quantidades industriais de bebida alcoólica e chorando frente ao retrato dela e o fato acabou inspirando uma sequencia de  O Poderoso Chefão quando o cantor Johnny Fontaine vai choramingar nos ombros do Don Corleone. O cantor chegou a dar um murro na cara de Mario Puzzo por ter sido “citado” no livro e no filme, mas ressurgiu do fim deste casamento muito mais maduro e melancólico, longe do garoto desprotegido do início de sua carreira.

Ava Garder nunca mais se casou. Namorou o toureiro espanhol Luis Miguel Dominguín enquanto morou em Madri e depois se mudou para Londres. Na década de 1980 fez poucos filmes e duas minisséries para a televisão.  Dois derrames em 1986 a deformaram. Quando soube que ela não podia pagar o tratamento, Sinatra bancou médicos, hospitais e até mesmo um jato para levá-la da Inglaterra para os EUA. Especula-se que gastou mais de um milhão de dólares para  tentar salvar o grande amor de sua vida. Ava faleceu em 25 de janeiro de 1990. Suas últimas palavras foram as mais apropriadas para alguém que tinha vivido tão intensamente: “estou cansada”.

 Em tempo, Ava visitou o Rio de Janeiro em 1954 para o lançamento de A Condessa Descalça e deu no que falar. Irritou-se com o hotel que haviam lhe reservado (chegou a quebrar móveis no quarto) e mudou-se para o Copacabana Palace. Impressionou a todos com a quantidade de bebida que consumia, a ponto de um jornal publicar uma charge onde havia um copo com as medidas “para mulheres”, “para homens”, “para cavalos” e a máxima, “para Ava”. No fim, ficou trancada no quarto o tempo todo, encurtou sua visita, mas dizem que saiu na última madrugada aqui para conhecer a Cidade Maravilhosa. Veja agora  o trailer de A Condessa Descalça:

Marcello Mastroianni em 3 Dimensões

Publicado no site da revista Alfa em dezembro de 2010
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Marcello Vincenzo Domenico Mastroianni foi, sem dúvida, o maior, mais consagrado e mais conhecido ator italiano. Era um homem bonito, extremamente charmoso, de olhar triste  e uma atitude tranquila, como se se mantivesse alheio aos outros, seja por timidez ou descaso, e com um sorriso muito discreto e melancólico no canto da boca. Uma combinação que encantava as mulheres dentro e fora das telas e que o tornou um tremendo referencial para o publico masculino. E, apesar dessa discrição, preenchia a tela com a força de sua interpretação e com seu carisma.

Nascido em 1924 em Fontana Liri, Marcello teve uma infância paupérrima. Na juventude conseguiu escapar de um campo de prisioneiros de guerra alemão e fugir para Veneza e, estudando arte dramática, acabou sendo descoberto pelo diretor Luchino Visconti, que o colocou como extra em uma adaptação de Os Miseráveis de 1948. Foi somente em meados da década de 1950 que ele alcançou o estrelato, dominando as telas e se tornando o principal ator de Federico Fellini. Apesar de ter sido casado com a mesma mulher a vida toda, teve um romance quente com a estonteante Catherine Deneuve na década de 1970, com quem teve uma filha, Chiara Mastronianni. Quando faleceu, aos 72 anos de idade em 1996, vítima de um câncer pancreático,  a cidade de Roma desligou e cobriu de preto a Fontana de Trevi, cenário da mais famosa cena de sua carreira, aquela onde entra no monumento de madrugada, acompanhado de Anita Ekberg em La Dolce Vita. Era um luto especial para o homem que deixou um legado de 143 filmes, 33 prêmios e três indicações ao Oscar. Tentar relacionar os melhores filmes de Mastroianni é uma tarefa hercúlea. O ator trabalhou com os melhores diretores italianos e também com alguns grandes do cinema americano e inglês como John Boorman e Robert Altman. O ideal, então, é encará-lo por três grandes características que moldaram sua persona na telas de cinema.

Marcello e o anti-sedutor: Mastroianni destestava a pecha de amante latino que os críticos americanos tanto o impingiam, pois dizia ter interpretado um gay, um corno e um impotente e só isso já bastava para não ser um símbolo sexual. Em parte ele tinha razão. Seus personagens sedutores mais famosos estavam longe da imagem do machão caricato. Em O Belo Antônio de 1960, filme dirigido por  Mauro Bolognini e roteirizado por Pier Paolo Pasolini, Marcello interpreta um belíssimo ragazzo, com uma tremenda fama de garanhão, que se casa com a fascinante Claudia Cardinalle e não consegue transar com a esposa, pois a ama tanto e a considera tão angelical, que não quer macular essa beleza. A comédia dramática mexe com grandes tabus italianos (e brasileiros também) como a obrigatoriedade do homem em não falhar na cama, a pressão do pai e dos amigos que não conseguem entender o romantismo  que cerca os seus sentimentos e até mesmo a posição da igreja católica, que não considera um casamento consumado se não houver sexo. Já em Esposamante de 1977, o ator faz o marido de Laura Antonelli, que desaparece quando acusado de um crime e vê sua esposa, antes frígida, não só tomar os negócios da família para si e ser muito bem-sucedida, como também arrumar um amante.  É a inversão de papéis em nome do equilíbrio do casal. Para quem curte romances impossíveis, Olhos Negros de 1987, mostra Marcello como um italiano de meia-idade, narrando a história do grande amor de sua vida, uma russa, que conhece em um spa no começo do século 20 e por quem decide abandonar tudo, país e esposa. Por esse filme, o ator recebeu sua terceira indicação ao Oscar.

Marcello e Snaporaz: Mastroianni foi mais que o ator preferido de Federico Fellini. Foi literalmente seu alter-ego nas telonas. O diretor o apelidou de Snaporaz depois de fazerem seu primeiro filme juntos e acabou utilizando esse nome nos personagens que viriam. A primeira obra conjunta da dupla foi La Dolce Vita de 1960, com o ator interpretando um jornalista de celebridades vivendo entre o glamour dos ricos e famosos e a namorada, neurótica e ciumenta.  É a fantasia frívola contra a dura realidade. Foi a obra que criou o termo paparazzo para os fotógrafos de celebridades; na verdade, o sobrenome de um dos personagens do filme, um fotógrafo. Três anos depois, Mastroianni se torna o próprio Fellini em seu filme mais autobiográfico, 8 1/2, onde faz Guido Anselmi, um diretor de cinema em crise criativa, assombrado por lembranças do passado e por atores e atrizes em busca de uma oportunidade. Em 1980, Snaporaz ressurge com o surreal Cidade das Mulheres, uma crítica mordaz tanto ao feminismo como ao machismo. O ator e o diretor teriam ainda mais duas obras juntos, o sensível Ginger e Fred onde ao lado da esposa de Fellini, Giulietta Masina, mostra a história de um casal idoso que tem a chance de refazer na TV um número musical que os tornaram famosos décadas antes, imitando Fred Astaire e Ginger Rogers. O filme fica entre o lirismo da volta ao passado e a acidez na crítica à televisão moderna. E, finalmente, em 1987, Marcello participa de Intervista, o falso documentário do genial diretor.

Marcello e Sophia: de Ontem, Hoje, Amanhã de 1963 a Pret-a-Porter de 1990, Marcello e Sophia Loren fizeram 14 filmes juntos e criaram uma das mais belas e bem-sucedidas duplas da história do cinema mundial. O primeiro filme da dupla, dirigido pelo mestre Vittoria de Sica, contava três histórias sobre desencontros de casais, todos interpretados pelos dois. Em Matrimônio à Italiana, no mais típico gênero da comédia de erros italiana, Marcello faz um homem de negócios que mantém um caso com uma ex-prostituta depois da II Guerra e ela cria situações incríveis para que os dois se casem. Já no drama Os Girassóis da Rússia de 1970, Loren faz a mulher que não quer descansar enquanto não achar o marido, desaparecido na então União Soviética durante a II Guerra. O desfecho surpreendente é de levar lágrimas aos olhos. O filme considerado como melhor da dupla, porém é Um Dia Muito Especial de 1977. Nele, Sophia interpreta Antonietta, uma mulher casada cuja família sai para ver o histórico encontro de Hitler com Mussolini. Infeliz no casamento com um marido machsita e ainda por cima fascista, ela decide se matar quando conhece Gabriele, seu vizinho homossesual.  O dia que passam juntos acaba por mudar suas vidas e seus valores. Dirigido por Ettore Scolla, ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro.

Meu Blake Edwards favorito

Publicado no site da revista Alfa em dezembro de 2010
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A essa altura você já deve saber que o diretor Blake Edwards faleceu aos 88 anos de idade. Ele foi o rei da comédia física nas décadas de 1960 a 1980, graças à série Pantera Cor-de-Rosa com o inglês Peter Sellers (tirando um tremendo sarro dos franceses). Ele também foi o cara que fez Audrey Hepburn cantar em Bonequinha de Luxo, apesar da insistência dos produtores para que ela fosse dublada e acabou imortalizando a canção “Moon River”. Quer mais? Ele transformou Bo Derek na grande musa dos anos de 1980 com o irregular Mulher Nota 10, flertou com o drama no pesado Vício Maldito de 1962 e seu filme A Corrida do Século de 1965 inspirou a dupla Hanna & Barbera a desenvolver o sensacional desenho A Corrida Maluca (este sim, um belo candidato para uma versão live action atual). Além disso, Edwards teve duas grandes parceiras na sua vida, a primeira com o compositor de trilhas sonoras Henry Mancini, que deu ao Inspetor Closeau uns dos temas mais lembrados pelas platéias do mundo todo e a segunda, talvez bem mais importante, o casamento de 42 anos com a grande dama do cinema, Julie Andrews. E, se você, como eu, sofre de “vergonha alheia”, nunca assista  Um Convidado bem Trapalhão. O filme tem sequencias geniais (como a do banheiro), mas você seguramente vai passar mal.
De toda a obra do cineasta premiado com um Oscar por sua carreira em 2004, Victor ou Victória de 1982 é seguramente o meu predileto. Edwards queria refilmar o clássico alemão de 1933, Viktor und Viktoria desde o final dos anos de 1970 com sua esposa e Peter Sellers, mas o ator faleceu em 1980, enquanto o casal filmava S.O.B. (o péssimo filme onde Andrews faz um topless). Escrevendo o roteiro em apenas um mês, Edwards criou uma das melhores comédias de todos os tempos com interpretações geniais e números musicais inesquecíveis.

A história é clássica: na Paris de 1934, cantora lírica inglesa passa fome e com a ajuda de um amigo gay, desenvolve a persona do Conde Victor Grazinski, um transformista polonês e estoura na noite, até que um gangster de Chicago se apaixona por ela e a comédia de erros está estabelecida.
Na falta de Sellers, Blake Edwards convocou um antigo ator de musicais da Broadway, Robert Preston, para fazer o gay Toddy e o cara rouba o filme. Preston já havia sido galã em Hollywood (ou como ele dizia, o ator A em filmes B e o ator B em filmes A) e sua performance como um homossexual sarcástico o levou a concorrer o Oscar, já que sua interpretação é sutil, sem grandes maneirismos e com uma leve, quase imperceptível, afetação. Para o gangster veio James Gardner, já famoso pelos seus personagens cínicos, acompanhado de Leslie Ann Warren como sua histérica e irritante namorada (numa performance incrível). Ainda completam o elenco John Rhys Davies (o anão de O Senhor dos Anéis) e Alex Karras como o inteligente e perspicaz guarda-costas de Gardner, com um segredo em sua vida.
O que sempre adorei em Víctor ou Victória é que Edwards conteve sua fixação pelo pastelão e mostrou piadas de maneira diferente do que fazia em seus filmes com Sellers. Ele cria toda uma expectativa em torno de uma barata em um restaurante para mostrar depois a confusão estabelecida de longe, com a câmera afastada e aí é que está a graça. Depois que o gangster descobre que o Conde não é homem e começa a ter um caso com Vitória, o filme dispara nas piadas do mundo gay, sempre com classe, como o fato de que todo mundo que eles encontram a partir dali é homossexual e, em uma das melhores cenas do filme, você morre de rir com a maneira com que Garner faz para se reafirmar como homem, indo de smoking a um boteco mau frequentado no pior bairro de Paris.


E tem ainda a cena final com Preston recriando de maneira desastrosa uma das ótimas sequencias musicais feitas por Andrews, “The Shady Dame from Seville”. Na trilha de comentários  do DVD, o diretor e sua esposa afirmam que o ator a fez sem cortes e sem ensaio e que os tombos, erros e as risadas dos coadjuvantes (e da platéia) eram reais. 

Victor ou Victória também é um show de diálogos surreais como esse:
Victória: Homens tem pomo-de-adão.
Toddy: Algumas mulheres também.
Victória: Diga-me uma!
Toddy: Nana Lanu.
Victória: Quem é Nana Lanu?
Toddy: A última mulher que eu transei.
Victória: Quando foi isso?
Toddy: A noite que antecedeu a manhã que decidi ser homossexual.

ou ainda como excelente diálogo entre Victória e um garçom:
Victória: Posso ver a carta de vinhos?
Garçom: Temos um branco 1934 e um tinto 1934.  Na semana passada tínhamos um rosé 1934, mas foi usado na salada.

Numa dessas grandes injustiças da Academia, sempre avessa a comédias, o filme concorreu a sete prêmios no Oscar e ganhou somente o de Melhor Trilha Sonora Original ou Adaptada. Preston, que merecia o prêmio, perdeu para Louis Gosset Jr e seu militar de A Força do Destino. Em compensação, o filme ganhou prêmios na França (o César de Melhor Filme Estrangeiro), na Itália (o David de Donatelo como melhor roteiro e melhor atriz) e ainda o Globo de Ouro de melhor atriz para Julie Andrews.  Em 2000, o American Film Institute escolheu as 100 melhores comédias de todos os tempos e Victor ou Victória ficou na 76a. posição, à frente de Os Fantasmas se Divertem e Bom Dia, Vietnã.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Shrek e outros grandes “homens” das animações

Publicado no site da revista Alfa em novembro de 2010
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Na primeira semana de dezembro, já mirando o natal, chega às lojas a quarta e última aventura do ogro Shrek nas lojas. É Shrek Para Sempre, onde o personagem, ao fazer um pacto com o duende Rumplestiltskin, acaba mudando todo o passado e criando uma realidade alternativa. O filme deixa claro que esta é a última aventura do herói, mas pode abrir caminho para spin-offs com, por exemplo, o excelente Gato de Botas de Antonio Banderas. Shrek, o primeiro, pegou todo mundo de surpresa em 2001 com sua sátira aos filmes fofinhos da Disney, mas mais do que isso, introduziu ao mundo um ser fictício que reflete aquilo que muitos homens gostariam para si. Ele é feio, grosso, com péssimos hábitos de higiene, antipático, egoísta e agressivo mas não só consegue conquistar a princesa gostosona, como ela acaba se adaptando ao seu estilo de vida, tornando-se igual a ele!

Existem, porém, outros personagens de desenhos animados que também refletem as diversas facetas do mundo masculino. Um deles é o sensacional Bob Parr ou Sr. Incrível da única animação que mostrou os efeitos da crise da meia idade em um homem, Os Incríveis da Pixar. O cara começa gordo, frustrado, em uma família disfuncional, com pequenas fugas noturnas com um ex-colega de profissão, para depois descobrir que um pouco de aventura não faz mal a ninguém e que acaba incentivando-o a manter a forma e se dedicar ao seu próprio bem-estar. O que acontece neste caso, porém, é que o cara recebe no final todo apoio da família, apesar da vida dupla. Nem sempre isso acontece fora dos desenhos.

A Disney se especializou em criar grandes vilãs para seus desenhos, mas alguns vilões até que são interessantes como Shere Khan em Mowgli, Clayton em Tarzan ou Gaston de A Bela e a Fera. Só que Jafar de Aladdin é que dá um show com sua classe, calma e segurança. Ele reflete o cara que não mede esforços para conseguir o que quer. Primeiro ele controla sutilmente o chefe, depois tenta entrar para a família do superior hierárquico à força e quando tudo dá errado, ele consegue uma ajuda forte o suficiente para se tornar o bambambam do negócio e colocar a chefia aos seus pés. E a gente não pode esquecer que mesmo ele sempre anda com o puxa-saco de plantão, o papagaio Iago.

O que acontece quando você é um adolescente revoltado, líder de uma gangue e seu melhor amigo começa a ficar poderoso demais? Você se alia a um pessoal da pesada e tenta colocar o desafeto na linha. Assim é Kaneda, o personagem principal de uma das melhores animações já realizadas, Akira de Katsuhiro Otomo. O filme consagrou mais do que a técnica de desenho com 327 cores diferentes, 2.212 tomadas e 160.000 figuras individuais (3 vezes mais que um desenho convencional). Na verdade, fez com que muito marmanjo quisesse uma motocicleta como a do protagonista do filme. Com ela, você não só poderia arrasar nas ruas, como teria todo o direito de gritar “Tetsuo” à vontade!

Finalmente temos o último e maior representante da complexa atitude masculina frente a uma mulher, o lobo do clássico e sensacional desenho de Tex Avery, Red Hot Riding Hood. O curta, uma sátira adulta à Chapeuzinho Vermelho, com a menina como uma corista em um clube e o lobo como o cara que quer tê-la a qualquer custo, foi realizado em 1943 pela MGM e foi considerado o sétimo melhor desenho já produzido pelos especialistas em animação, apesar dos problemas com a censura na época. Depois dele, o clássico assobio ao se ver uma mulher, passou a ser conhecido nos Estados Unidos como “Wolf´s whistle” ou assobio do lobo. Em O Máscara, Jim Carrey repete a mesma sequencia de exageros faciais e no comportamento ao ver Cameron Diaz no restaurante. Assista o clássico abaixo (com legendas em espanhol) e depois confesse: quantas vezes você não uivou frente a um belo corpo?

Dois homens, uma mulher e o Texas

Publicado no site da revista Alfa em novembro de 2010
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Se estivesse vivo, Roy Harold Scherer Jr. ou Rock Hudson como ficou conhecido, teria completado ontem 85 anos. Alto, bonito, simpático e charmoso, foi um dos maiores galãs e símbolo de masculinidade que já apareceu nas telas, apesar de sua vida secreta. Ele ficou muito popular nos anos de 1960 com suas comédias deliciosas e açucaradas ao lado de Doris Day e Tony Randall como Confidências à Meia-Noite ou Não me Mandem Flores e depois como Stewart McMillan na ótima telessérie policial Casal McMillan, que durou de 1971 a 1977. Só que não houve nenhum papel que tivesse o impacto e a força de seu Jordan “Bick” Benedict Jr. de Assim Caminha a Humanidade lançado em 1956.

Baseado na obra de Edna Ferber (que escrevera outra obra que se tornou sucesso nos cinemas, Cimarron) e dirigido por George Stevens (ele ganhou um Oscar por ele e também ficou conhecido por ter filmado a liberação -- real -- dos campos de concentração nazista), o filme ficou marcado por ter sido o último trabalho do ícone da rebeldia James Dean. Se você nunca assistiu, Giant - o nome original e não o exagero brasileiro -- narra a história da transformação do Texas, de suas enormes fazendas de gado nos anos 1920 para o pólo petrolífero dos Estados Unidos na década de 1950, focando em uma família, os Benedict. Mostra desde o casamento do fazendeiro texano Jordan com a nortista Leslie (Elisabeth Taylor, deslumbrante) até os primeiros anos de seus netos. No meio disso tudo, existe o empregado da fazenda, Jett Rink (James Dean), que vai dar muita dor de cabeça ao seu patrão. Enquanto nos faroestes ser homem era sobrepujar o outro atirando mais rápido, aqui a luta entre os dois rivais se dá através de poder e do dinheiro. Principalmente quando o que está em jogo é a atenção de Elisabeth Taylor

Em três horas e vinte de narrativa (que você não sente, porque é uma aula de cinema), vemos passar tipos maravilhosos e envolventes como Luz, a durona irmã de Jordan, interpretada por Mercedes MacCambridge; a filha rebelde do casal principal, Luz Benedict II (a maravilhosa Carroll Baker que era mais velha que Taylor); o filho que causa um desgosto danado ao pai Jordan ao se casar com uma mexicana (Dennis Hopper, 13 anos antes da psicodelia de Sem Destino) e o melhor de todos, o Tio Bawley (Chill Wills) que serve de consciência para todos os personagens e que tem as melhores sacadas do filme (por exemplo, quando Dean acha petróleo em seu pedaço de terra e esfrega isso na cara de Rock Hudson, o velho só faz um comentário: “Você devia ter atirado nele anos atrás. Agora ele é muito rico para ser morto”).

James Dean, aliás, especializara-se em personagens tão tristes e problemáticos como ele mesmo. Fez um filho rebelde em Juventude Transviada, outro filho com graves problemas paternos em Vidas Amargas e agora seu Jett Rink, baseado no magnata do óleo Glenn McCarthy, não foge à regra, com terríveis questões de autoridade, desafiando o patrão e, depois de rico, tornando-se seu maior concorrente. Dean era um ator do “método” de Lee Strassberg e do Actors Studio e apesar de discutir à beça com o ditatorial Stevens, imprime em Rink uma profundidade e força que são difíceis de se encontrar até hoje. Um dos destaques na formação do personagem é sua maneira de encerrar uma frase, movendo a mão de um lado para outro e olhando para o lado, que além de marcante, faz com que você saiba que, com isso, ele estava mandando seu interlocutor para um pouco mais longe que o Rio Grande. Já Hudson consegue fazer um Bick bronco, durão e ao mesmo tempo sensível e paternal, que vai descobrir que seu estilo de vida e de pensamento estão caindo em desuso à medida que a história se passa. Sua conclusão no final que seu neto mestiço (meio chicano, meio americano) parece ser mais esperto que o neto 100% americano é um divertido sinal dessa evolução.

Brilhantemente fotografado, Giant discute racismo, concorrência, política, amadurecimento, riqueza, rebeldia e transformação. O filme consolidou a carreira de Hudson e Taylor e transformou Dean (que morreu em um acidente de carro no fim das filmagens) em uma lenda. Mesmo se o estúdio tivesse dado seguimento à idéia original de colocar Grace Kelly, John Wayne e Alan Ladd nos papéis principais, ainda assim seria um filme fascinante. Apesar do custo de cinco milhões (contra dois do orçamento inicial) e de ter ficado um ano sendo editado, foi a maior bilheteria da Warner Brothers por décadas, sendo que essa marca só foi superada em 1978 com o lançamento de Superman -- O Filme. É um dos meus filmes favoritos e recomendo a qualquer um que queira ver como um homem de verdade pode ser.

15 filmes de invasão alienígena

Publicado no site da revista Alfa em novembro de 2010
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Depois dos zumbis e dos vampiros, o cinema agora se volta (de novo) às invasões alienígenas. Primeiro veio o ótimo Distrito Nove, um dos filmes mais inventivos e bem feitos já produzidos, o independente Monsters – que segundo os comentários no site IMDB é um desperdício de boas idéias e para 2011 vem aí Battle: Los Angeles, onde a cidade dos anjos é atacada por seres de outros planetas e Cowboys & Aliens, que narra o que acontece com uma nave espacial que cai em uma cidade do velho oeste.

A Terra já foi visitada várias vezes nas grandes telas, por raças aliens do bem e do mal ,em produções boas e péssimas. Aqui vão 12 delas que são geniais e três totalmente dispensáveis.

OS 12 FILMES IMPERDÍVEIS:

1. Guerra dos Mundos (1953): esqueça a versão de 2005 feita por Spielberg e com Tom Cruise tentando ser um bom pai. O clássico de George Pal não só é considerado uma das melhores ficções científicas de todos os tempos, como também o melhor filme de invasão pela crítica especializada, graças ao design das máquinas de guerra marcianas e à condução da história . E mais, no final dá para você entender que foi um vírus que acabou com os aliens e não o Tom Cruise.

2. Vampiros de Almas (1956) e Invasores de Corpos (1978): esse é um exemplo de refilmagem tão boa quanto a original. A versão de 1956, com Kevin McCarthy, se tornou obrigatória para qualquer cinéfilo, mas as opiniões se dividem, pois para uns ela é uma crítica ao comunismo, enquanto para outros é uma fábula sobre o maior inimigo americano dos russos, o macartismo. Em 1978 foi refilmada com Leonard Nimoy e Donald Sutherland com a mesma história: alienígenas invadem a Terra e se apossam da identidade dos humanos eliminando-os e substituindo-os por seres sem emoções e conformistas. O mais impressionante é que essas duplicatas eram geradas dentro de enormes vagens. Em 2007, a trama foi mais uma vez reciclada no péssimo Os Invasores.

3. O Dia em que a Terra Parou (1951): um filmaço quando o mundo temia uma guerra nuclear, uma porcaria na edição de 2008. O libelo pacifista da década de 1950, mostrava um alien, Klaatu e seu robô Gort, que pousam na Terra em nome de outros planetas para alertá-la que, se as guerras não acabassem, o mundo seria destruído. O diretor Robert Wise levaria, anos depois, Star Trek às telonas com o primeiro filme da cinessérie e consagraria a frase “Klaatu Barada Nikto”. Imperdível.

4. Plano 9 do Espaço Sideral (1958): já foi considerado o pior filme de todos os tempos e hoje é um dos mais cultuados trash movies, com uma legião de fãs de seu diretor, o péssimo Ed Wood. Com Bela Lugosi, o viciado ator que incorporou Drácula na versão de 1931, contava a história de dois alienígenas que cansados dos humanos, resolvem resssucitar mortos e vampiros. Lugosi morreu no meio das filmagens e foi substituído por um sósia que ficava o tempo todo com o rosto coberto por uma capa. Em tempo, nunca é explicado quais foram os planos de um a oito.

5. A Bolha (1958): Steve McQueen sempre declarou que se arrependia até o fundo da alma por ter participado desse filme, sua segunda aparição nas telonas. A trama é ótima: um ser alienígena em forma de massa gelatinosa vai consumindo tudo que aparece na sua frente e vai crescendo a proporções gigantescas. Foi refilmado 30 anos depois como A Bolha Assassina com Kevin Dillon e efeitos especiais nojentos.

6. Enigma de Outro Mundo (1982): refilmagem de Monstro do Ártico de 1951 e um classicásso de terror do segundo diretor mais trash de todos os tempos e rei das telas nos anos 80, John Carpenter. Cientistas na Antartida se deparam com uma alienígena capaz de mudar de forma e assumir a identidade de quem ele mata. Destaque para a cena da cabeça com perninhas, capaz de fazer você lembrar do jantar de dois dias antes.

7. Força Sinistra (1985): nessa ficção inglesa, uma nave que está explorando o cometa Halley (moda na época) traz para a Terra uma força do mal alienígena que transforma a população de Londres em zumbis. O lance principal do filme é que o ser de outro planeta é a estonteante atriz Mathilda May que passa os 116 minutos da história totalmente nua e mostrada de todos os ângulos, ou seja, você quer se abduzido por ela o tempo todo. Os nerds viram que ficção podia ser sensual (e depois voltaram a babar com A Experiência de 1995 com Natasha Henstridge).

8. Predador (1987) e Predador 2 (1990): pode falar o que for, mas os dois primeiros filmes da saga do Predador são muito bem bolados, bem filmados e com ótimas histórias, especialmente o primeiro mostrando aquele bando de machos estereotipados quebrando frente a algo que eles não podiam entender. O segundo, que substitui a selva da America Central pela selva urbana de Los Angeles não fica atrás e explica a motivação dos aliens. Gerou sequências idiotas.

9. Independence Day (1996): o filme pode ser a peça mais americanófila já feita no cinema, mas foi a primeira vez que o diretor Roland Emmerich destruiu o mundo (depois vieram Godzilla, O Dia Depois de Amanhã e 2012) e os efeitos especiais impressionavam como a destruição da Casa Branca e de outros famosos pontos turísticos americanos.

10. Men in Black (1997): totalmente inspirado nas lendas urbanas dos homens de preto e da Área 51 e baseado em uma história em quadrinhos, o filme é um clássico de humor, especialmente com o cinismo e frieza do agente K de Tommy Lee Jones e o Chefe Zed de Rip Torn. Destaque também para a interpretação física de Vincet D´Onofrio como o homem que é possuído pelo alien barata. Piadas com celebridades sendo de outros planetas como Elvis, Micheal Jackson e Dennis Rodhan são ótimas.

E TRÊS FILMES QUE VOCÊ DEVE PERDER:

1. Sinais (2002): M. Night Shyamalan é a prova de que se você começa do alto, seu único caminho será descer. Fez o genial O Sexto Sentido e depois nunca mais conseguiu realizar nada realmente bom, culminando com o terrível Mestre do Ar. Neste aqui, Mel Gibson é o reverendo e fazendeiro Graham, que perdeu a fé em Deus e acaba vendo que as estranhas formas geométricas em seu milharal são indícios de uma invasão alienígena.

2. A Reconquista (2000): O que você faz quando se é membro de carteirinha da cientologia? Leva às telas um dos livros de seu fundador, L. Ron Hubbard! Foi o que fez John Travolta nesse péssimo filme onde no ano 3000 a humanidade escravizada por uma raça do espaço resolve revidar e reconquistar a Terra. Custou US$ 44 milhões e faturou metade disso, quase mandando Travolta, de novo, para o ostracismo.

3. Marte Ataca (1996): Tim Burton é, com toda a razão do mundo, um dos mais geniais diretores de todos os tempos, mas de vez em quando dá uma pisada na bola terrível como em Batman II, Planeta dos Macacos (uma heresia) e Alice no País das Maravilhas. Este aqui, baseado em uma coleção de figurinhas é brega demais, exagerado demais e chato demais. Só se salva com a tremenda tiração de sarro em cima de A Guerra dos Mundos, já que não é um vírus que elimina os aliens e sim uma música country de Slim Whitman.

BÔNUS!

Killer Klowns from Outer Space (1988): sim,aliens invadem nosso planeta na forma de palhaços assassinos. Não precisa dizer mais nada.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Grace Kelly, a princesa e a plebéia

Publicado no site da revista Alfa em novembro de 2010
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Grace Kelly foi mais um arquétipo do que uma pessoa real. Era a imagem da típica garota americana idealizada nos anos 50: loura, bonita e de família rica. Na cabeça de todos, ela acabou realizando o sonho de qualquer adolescente, fazendo um príncipe se apaixonar e tornando-se princesa de um reino distante. Magra, rosto virginal e jeito frio e contido, contrastava com vulcões de sensualidade e corpos voluptuosos como Marilyn Monroe e Jane Russel. Em classe e elegância nas telas perdia apenas para Audrey Hepburn.

Acontece que Grace Patricia Kelly não era a mocinha santinha que o público consagrou. Tinha sim, classe, beleza e charme incomparáveis. Só que nos bastidores de Holywood, era muito conhecida por seu furor sexual, direcionado principalmente aos atores com que contracenava. Foi assim com Ray Milland quando fizeram Disque M para Matar; com Gary Cooper, o astro de sua primeira participação nas telonas, Matar ou Morrer; com Bing Crosby, seu par em Amar é Sofrer (que lhe deu um Oscar como a esposa de um cantor alcoólatra), com Clark Gable nos intervalos de Mogambo e com William Holden de As Pontes de Toko-Ri. Garota esperta, só escolhia os casados e como as personagens que interpretava, sempre os caras mais velhos que ela. E além desses, reza a lenda que teve noites de prazer e luxúria com David Niven (que teria consirado a mocinha como a melhor transa que teve na vida), Marlon Brando, Frank Sinatra e Tony Curtis.

Mesmo seu casamento com Rainier de Mônaco está longe de ser um conto de fadas. Na verdade, devido a um acordo assinado em 1918, o Príncipe deveria se casar ou o principado voltava a ser parte da França. Encalhado, resolveu procurar uma atriz para trazer mais glamour e mais turistas à sua terra. Como Marilyn não fazia bem o tipo princesinha, o nobre acabou direcionando seus esforços para outra loura. Kelly e Rainier se encontraram e três dias depois, o pedido foi feito com um detalhe desconcertante, a família dela pagou um dote de dois milhões de dólares a ele. O público pouco sabia desses arranjos, mas Alfred Hitchcok, que a dirigiu em três filmes, entre eles Janela Indiscreta (e ela nunca esteve tão deslumbrante como nessa obra) brincou: “fico feliz que Grace tenha conseguido um papel tão bom”. Seu casamento teve 600 convidados mais do que VIPs e foi assistido por mais de trinta milhões de pessoas pela TV e isso na década de 1950.

Ser princesa e atriz não combinava muito e Kelly abandonou o cinema para abraçar a realeza. Seu último filme foi a deliciosa comédia musical Alta Sociedade de 1956, refilmagem de Núpcias de Escândalo, com Crosby, Sinatra e Louis Armstrong. Apesar dos escândalos, Grace Kelly foi extremamente amada e admirada por seus parceiros da indústria do cinema. Ficou muito próxima de Cary Grant depois de contracenarem em Ladrão de Casaca e de James Stewart, que fez um discurso emocionado em seu enterro. Radicalmente antiracista, Kelly tornou-se grande amiga da icônica cantora Josephine Baker, depois que a última foi barrada no Stork Club de Nova York simplesmente por ser negra. Como princesa, fundou uma organização não-governamental de auxílio a crianças carentes. Grace Kelly completaria 81 anos hoje e mesmo 28 anos depois de sua morte em um acidente de carro, nunca perdeu a majestade.

Nunca houve um grupo como o Rat Pack

Publicado no site da revista Alfa em novembro de 2010
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Se os anos Kennedy ficaram marcados pelo glamour do presidente americano e sua Camelot, então os representantes máximos dessa época são os integrantes do chamado Rat Pack, liderados por Frank Sinatra. Na verdade o grupo original foi formado pelo ator Humphrey Bogart na década de 1950 e faziam parte Sinatra, Judy Garland e seu marido, Lauren Bacall, o agente de talentos Swifty Lazar, o escritor Nathaniel Benchley, o diretor George Cukor, o compositor Jimmy Van Heusen e os atores David Niven, Katharine Hepburn, Spencer Tracy, Cary Grant, Rex Harrison. Eventualmente o rei dos filmes “capa-e-espada” Errol Flynn, o cantor Nat King Cole, o ator Mickey Rooney e Cesar Romero ( o Coringa do seriado do Batman da década de 1960) apareciam por lá.

Existem várias versões do porque do nome (ninhada de ratos). Uma delas diz que quando Bogie voltou de uma passeio em Vegas com amigos, sua esposa, a mais que estonteante Lauren Bacall teria afirmado que eles pareciam uma ninhada de ratos. Outra lenda fala que o nome vinha do fato que em uma ninhada de ratos, os bichos se tornam beligerantes com qualquer outro roedor que tente entrar lá.

Com a morte de Bogart em 1957 veio a segunda e mais famosa geração do Rat Pack com Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis, Jr., Joey Bishop, Peter Lawford, e eventualmente as beldades Marilyn Monroe, Angie Dickinson, Juliet Prowse e Shirley MacLaine. Na verdade, o velho olhos azuis odiava essa denominação para seu grupo de amigos. Ele preferia que os chamassem de “o clã”, mas os jornalistas da época não lhe deram ouvido e a alcunha pegou até hoje. Na grande trindade do grupo cada um tinha um papel específico, perfeitamente ensaiado e interpretado e que acabou se confundindo com a persona dos artistas, ou seja, Sinatra era o líder duro e cruel, Dino era o alcoólatra e Sammy incorporava um negro judeu totalmente politicamente incorreto. Os três eram tão amigos que muitas vezes em Las Vegas, os luminosos mostravam “Hoje Dean Martin, talvez Sammy, talvez Sinatra”, pois a qualquer momento um deles poderia invadir o show alheio.

Peter Lawford, por ser cunhado de Kennedy, tentou aproximar o presidente de Sinatra, com resultados um tanto desastrosos. Eles haviam combinado que o cantor receberia o estadista em sua casa para um fim-de-semana regado a música e bebidas, mas Bobby Kennedy chiou alegando a ligação de Sinatra com a Máfia. O “séquito real” acabou indo para a residência de Bing Crosby e Lawford foi punido sendo cortado do grupo.

Os membros do Rat Pack trabalharam em 13 filmes juntos, mas o mais famoso, e que reuniu todo o grupo, foi o delicioso Onze Homens e um Segredo, a história de um roubo em Las Vegas com um dos finais mais surpreendentemente sacanas de todos os tempos, que a versão nova não teve coragem de fazer. Todos os cinco integrantes ainda fariam o faroeste Seargents 3 e, na fase sem Lawford, o musical Robin Hood de Chicago. A última vez que Frank, Dean e Sammy apareceram juntos nas telas foi em na comédia de corrida Quem Não Corre, Voa 2 de 1984.

Há cerca de três anos foi lançado um DVD com a única performance dos três gravada em um show de 1965 em Nova Orleans, Ultimate Rat Pack Collection: Live & Swingin, e é aí que você entende o espírito do bando. Eles cantam, bebem no palco e zombam um do outro todo o tempo, sem a mínima preocupação se estariam ofendendo esse ou aquele grupo social, já que Sammy fica constantemente tirando o maior sarro de ser negro, judeu e sua mãe ser latina. Ao final desse show, o icônico apresentador Johnny Carson despede-se da platéia dizendo “muito obrigado pela sua presença aqui esta noite mas saibam que nós nos divertimos mais do que vocês”. E fica claro que ele não estava brincando. Os caras curtiram muito se apresentar naquela noite.

Joey Bishop, foi o último sobrevivente do Rat Pack e morreu aos 89 anos no dia 17 de outubro de 2007 (Lawford faleceu em 1984, Sammy em 16 de maio de 1990, Dino morreu em casa na manhã de Natal de 1995 e Sinatra em 14 de maio de 1998 aos 82 anos). Com ele foi embora um estilo de vida único que aliava boa companhia, elegância, bom humor e, obviamente, as mulheres – que caiam à torto e à direito em seus braços – e muita bebida.

Brooke Shields e A Lagoa Azul

Publicado no site da revista Alfa em novembro de 2010
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Não é para esnobar, mas ter sido adolescente nos anos 80 foi bom pacas em termos cinematográficos. Enquanto a molecada de hoje tem aguentar as caras e bocas do pessoal de Crepúsculo ou Harry Potter, cheio de gente boazinha, pura e com as mocinhas hermeticamente vestidas e meninos de peito de fora, nós tivemos A Lagoa Azul, o único filme romântico voltado a teens com nudez e sexo softcore, que este ano completou 30 anos. E mais, esqueça Kirsten Sterwart! Nós tivemos Brooke Shields!

A história, escrita em 1908 pelo irlandês Henry De Vere Stacpoole e já filmada em 1923 e 1949 (esta com Jean Simmons depois que Marilyn foi gongada) era a mais surreal possível. Caso você não se lembre, aqui vai: casal de crianças naufraga junto ao cozinheiro do navio e após a morte desse crescem sozinhas em ilha paradisíaca, para juntos descobrir o amor e o sexo. A direção era de Randal Kleiser que dois anos antes tinha conseguido levar hordas de adolescentes ao cinema com o musical Grease -- Nos Tempos da Brilhantina (quem cria esses subtítulos brasileiros, hein?). Ao procurar atrizes para a empreitada, o esperto diretor colocou uma condição básica: os protagonistas principais, quando “adultos”, trabalhariam nus. E aí viu pessoas como Kelly Preston (que apareceria pelada em A Primeira Transa de Jonathan de 1985), Linda Blair (de O Exorcista), Jodie Foster, Isabelle Adjani, Michelle Pfeifer, Daryl Hanna, Rosanna Arquette, Debra Winger e até mesmo uma das minhas preferidas, Jennifer Jason Leigh (que tirava a roupa a torto e à direito em clássicos como Picardias Estudantis e Conquista Sangrenta) caírem fora. Da parte masculina, John Travolta e Christopher “Superman” Reeve também não toparam o desafio e, acredite se quiser, Sean Penn não passou no teste.

Eis que surge a idéia de trazer a ninfetinha Brooke Shields, então com 15 anos de idade e um rosto de parar os trânsito. Em 1978, ela já havia chocado o mundo e feito a alegria dos pedófilos de plantão quando estrelou o filme Pretty Baby do francês Louis Malle, no papel de uma prostituta infantil num bordel na Nova Orleans de 1917. Nesta obra em questão, ela aparece como veio ao mundo, mas para A Lagoa Azul foi exigido um dublê de corpo, para o desespero do diretor. Mesmo nas cenas em que aparece sem camisa, seu cabelo foi colado aos peitos, para não ficar muito explícito. Para seu par foi escolhido o inexpressivo e sarado Christopher Atkins, depois que centenas de marmanjos disputaram a tapa a chance de ver de perto a srta Shields sem roupa. E nessas também existe uma história ótima. A atriz, já aos 15 anos, media 1,79m enquanto Atkins tinha 1,68m. Como a figura do macho heróico nunca poderia ser mais baixa que o da mocinha indefesa, tiveram que cavar trincheiras na areia para a menina parecer menor. Anos mais tarde, o rapaz disse em uma entrevista que ele trabalhou com a Estátua da Liberdade nas filmagens.

Filmado nas Ilhas Fiji e responsável pela descoberta de uma nova espécie de iguanas (isso é sério), A Lagoa Azul custou na época US$ 4,5 milhões e faturou mais de US$ 58 milhões só nos EUA, mesmo atacado por grupos conservadores como pornografia infantil. Não ganhou nenhum prêmio enaltecedor mas Brooke recebeu o de pior atriz no Framboesa de Ouro (e depois a obra entrou como um das 100 piores e mais divertidos filmes de todos os tempos na coletânea feita pelos organizadores). Apesar disso, a carreira da mocinha deslanchou e foi musa, por muitos anos, do jornalista Paulo Francis que não se segurava ao cantar odes a ela no programa Manhattan Connection. Rendeu uma versão pornô, The Pink Lagoon com Ginger Linn Allen, uma continuação em De Volta à Lagoa Azul (que mostrou Milla Jovovich ao mundo) e ainda foi esculhambado no excelente Top Secret (alguém também me explica, por favor, porque esse filme NUNCA foi lançado em DVD no Brasil?).

O filme estreou aqui em janeiro de 1981. Sei disso porque foi o primeiro filme com censura 14 anos que assisti (fui no dia do meu aniversário e na época os bilheteiros de cinema eram mais chatos e rigorosos, então imagine meus sorriso de alegria por poder entrar no cinema sem acompanhamento dos pais). Pode apostar que por um bom tempo aquela menina maravilhosa povoou meus sonhos.

10 carros famosos do cinema

Publicado no site da revista Alfa em outuro de 2010
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O Salão do Automóvel está aí e nada mais apropriado do que falar dos carros que encantaram as platéias no cinema, mesmo porque automóveis e filmes tem uma relação de longa data. No cinema mudo, por exemplo, o carro era usado para fazer rir, como no caso dos Keystone Kops de Mack Sennet. Já alguns deles se tornaram “parte intergrante do pacote” como o Aston Martin de James Bond (o de Goldfinger foi leiloado ontem) e outros são verdadeiros personagens do filme, como a Kombi de Pequena Miss Sunshine. Existe até mesmo um completo banco de dados sobre o assunto no site imcdb.org (Internet Movie Cars Database). Aqui vão 10 que fizeram nossa alegria:

A Ferrari 1961 GT 250 de Curtindo a Vida Adoidado era, na verdade, uma réplica feita em fibra de vidro. Como somente 104 unidades foram produzidas, a montadora italiana recebeu inúmeras cartas de proprietários revoltados achando que o filme havia mesmo destruído um dos carros.

Agarra-me Se Puderes de 1977 trazia Burt Reynolds, mas quem ficou famoso foi o Pontiac Trans Am. Por causa do filme, as vendas dobraram em dois anos e na cena em que o carro salta uma ponte quebrada, os técnicos acabaram adaptando um motor da Chevrolet no carro para dar mais potência.

Bullit de 1968 ficou famoso por sua perseguição em San Francisco. Nela, o bandidão estava em um Dodge Charger R/T 440, que conseguia correr tanto quanto o Mustang 390 GT de Steve McQueen. Dois de cada modelo foram usados na filmagem, mas no final só sobrou um Mustang para contar a história.Um Charger foi também usado por Kurt Ruissel em À Prova de Morte de Tarantino.

Os Blues Brothers, em sua missão divina, andavam no seu indefectível “Bluesmobile” e arrasavam tudo o que encontravam na frente, de neonazistas a banda de country music. O carro era um Dodge Mônaco 1974 Sedan e ficou tão famoso que tem até website dedicada a ele, o bluesmobile.net.

No roteiro original de De Volta para o Futuro, a máquina do tempo seria uma geladeira, mas com medo que crianças se sufocassem brincando de Marty McFly, os produtores optaram por um De Lorean DMC 12, feito em aço inoxidável, justamente por seu design parecer alienígena e que assustaria as pessoas de 1955.

Os Caça-fantasmas, comédia de 1984 que no ano que vem ganha sua terceira edição, combatiam o sobrenatural em uma ambulância Cadillac de 1959 , a Ecto-1, que originalmente seria toda preta, mas como eles trabalhavam mais à noite. foi repintada de branco.

Cada década tem o Batman e o batmóvel que merece. Enquanto no filme de 1989 e em Batman Begins, o herói usava carros desenvolvidos especialmente para a produção, o Homem-Morcego utilizou um Lincoln Futura, um modelo conceitual – não vendido em série – adaptado, na série de TV e no longa de 1966.

O Interceptor de Mad Max era um Ford Falcon GT 1973, modelo de grande sucesso na Australia. Para o segundo filme, os produtores utilizaram o mesmo carro do primeiro e hoje ele está exposto no Cars of the Stars Motor Museum da Inglaterra.

O Gran Torino é praticamente um ator. Foi o carro do Dude em O Grande Lebowski, era o automóvel de James Gardner em Arquivo Confidencial e da dupla Starsky e Hutch no famoso seriado dos policiais durões e virou nome de filme (sensacional, diga-se de passagem) de Clint Eastwood.

Aqui abro uma exceção para falar de um caminhão e não de um automóvel, já que este foi um dos veículos mais assustadores da história da sétima arte, o Peterbilt 281 de 1955 do filme Encurralado, primeiro longa metragem de Steven Spielberg. Na história um caminhão persegue um infeliz motorista pelas estradas da California. Não há menor explicação do porque e como o caminhoneiro nunca aparece de corpo inteiro é a máquina que se transforma em uma força maligna. Muitos filmes já foram feitos com carros do mal, como Christine ou carros do bem como Herbie, mas nenhum deles tem a força e o impacto visual do caminhão de Encurralado.

10 frases geniais de John Cleese

Publicado no site da revista Alfa em outubro de 2010
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Hoje é aniversário de John Cleese, um dos fundadores do Monty Python ou o sucessor de “Q” do James Bond de Pierce Brosnan ou o homem que emprestou a voz para o rei sapo de Shrek. Advogado formado por Cambridge, Cleese preferiu voltar sua dedicação ao humor escrevendo para programas de rádio ingleses e para a televisão até que em 1969 criou, com outros roteiristas, o Monty Python´s Flying Circus, um programa humorístico onde o surreal dava o tom, ao melhor estilo da comédia inglesa. A série teve três temporadas na TV e quatro longas, O Cálice Sagrado, A Vida de Brian, Ao Vivo no Hollywood Bowl e O Sentido da Vida. O comediante continuou na TV com o seriado Fawty Towers, de sua autoria, e ganhou fama internacional com o hilariante Um Peixe Chamado Wanda. Depois disso vieram os filmes de Bond, o Ned Sem Cabeça de Harry Potter e o Lyle Fynster, um dos maridos de Karen do seriado Will & Grace e chegou ainda a colaborar em um gibi do Superman que zombava da Inglaterra. Em homenagem aos seus 71 anos, aqui vão 10 afiadas frases do ator, que aliam sabedoria e sarcasmo como ninguém.

“Na Inglaterra as garotas são ou brilhantes ou atraentes. Nos Estados Unidos é diferente. Elas são as duas coisas”

“[na eulegia que fez a Graham Chapman, quando de sua morte] E eu acho que estamos todos pensando como é triste um homem de talento, um homem de tal capacidade e bondade, de inteligência incomum, assim de repente, ser levado na idade de apenas 48 anos, antes que ele tivesse conseguido muitas das coisas que era capaz, e antes que ele tivesse se divertido muito. Bem, eu sinto que eu deveria dizer: “Bobagem!” Boa viagem para ele, bastardo folgado, e eu espero que ele frite.”

“Por que alguém que nunca cometeu um crime deveria ser obrigado a escutar música country é algo além da minha compreensão”

“Eu costumava desejar muitas, muitas coisas, mas agora só tenho um desejo: me livrar de todos os outros desejos”

“Se Deus não desejava que comessemos animais, por que os fez de carne?”

“Acho que é bastante fácil de retratar um homem de negócios. Ser desagradável, cruel e incompetente vem naturalmente para mim. “

“Quem ri muito, aprende melhor. Se eu conseguir fazer você rir comigo, você vai gostar mais de mim, o que o torna mais aberto às minhas idéias. E se eu puder persuadi-lo a rir num determinado assunto que quero explicar, por rir disso, você reconhece a sua verdade.”

“A única coisa que me lembro sobre o Natal era que meu pai costumava me levar para fora em um barco por cerca de dez milhas no mar no dia de Natal, e eu costumava ter que nadar de volta. Extraordinário. Era um ritual. Entenda que isso não era o pior. A parte difícil era sair de dentro do saco. “

“Uma idéia realmente boa é sempre rastreável por um longo caminho, muitas vezes ligada a uma idéia não muito boa, que foi desencadeada por uma outra idéia que foi apenas um pouco melhor, que alguém entendeu mal, de tal maneira que, em seguida, disse algo que era realmente muito interessante. “

“A tecnologia me apavora. É projetada por engenheiros para impressionar os outros engenheiros. E sempre vem com manuais de instruções que são escritas por engenheiros para engenheiros. E é por isso que na maioria das vezes a tecniologia não funciona”

A eterna princesa

Publicado no site da revista Alfa em outubro de 2010
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Audrey Hepburn voltou a ser notícia quando, na semana passada, uma cartela com 10 selos estampando seu rosto foi leiloada na Alemanha pela bagatela de 430 mil euros ou um milhão de reais, com o montante sendo direcionado à Unicef germânica e ao Fundo dos Filhos de Audrey Hepburn, uma entidade que cuida de crianças no mundo todo.

Se você não sabe, Audrey é a musa mais cantada em verso e prosa na história do cinema. Era linda demais, com um corpo totalmente fora dos padrões voluptuosos dos anos clássicos de Hollywood e com um jeito encantador de falar. Isso sem falar em seu olhar, terno e doce. Se você for homem, maior de 18 anos e assistiu A Princesa e o Plebeu e não se apaixonou por aquela mulher, então com 24 anos de idade, então pode ter certeza que você tem problemas sérios. Saiba que é difícil ver, por exemplo, Sabrina e não imaginar aquela menina quebrando ovos para você. Por ela dá para se aguentar os 208 minutos de Guerra e Paz, assistir a dramalhões como Uma Cruz à beira do Abismo e musicais chatinhos como Quando Paris Alucina, ou até mesmo suportar suspenses de grudar na cadeira como Um Clarão nas Trevas. Por Audrey dá para se invejar Cary Grant mais ainda. Além dela ter exigido trabalhar com ele em Charada, lá pelas tantas no filme solta uma frase que todo homem gostaria de ouvir de uma mulher apaixonada: “sabe o que há de errado com você? Nada!”. A única coisa que não dá para encarar é que sua personagem em Bonequinha de Luxo era uma garota de programa de alta classe. Preferimos vê-la como uma menina interiorana sonhadora e pura, que canta “Moon River” na janela.

E por falar em inveja, Audrey foi casada duas vezes, uma com Mel Ferrer e outra com o médico italiano Andrea Dotti, mas é sabido que teve romances tórridos com William Holden (terminado pois soube que ele havia feito vasectomia) e Albert Finney, seu parceiro em Um Caminho para Dois, entre outros sortudos. Sua elegância e classe encantaram o costureiro Hubert de Givenchy, que criava peças exclusivas para ela usar nos filmes. Era amiga dos Kennedy e cantou “Happy Birthday, Mr President” para JFK em 1963, um ano depois da famosa apresentação de Marilyn Monroe. Sua infância miserável na II Guerra a inspirou a ser embaixadora da Unicef em seus últimos anos e dedicou seus esforços para debelar a fome e as doenças entre crianças de países do terceiro mundo. Apesar de ter ganho apenas um Oscar e um Tony, foi escolhida a terceira maior lenda feminina das telas pelo American Film Institute, perdendo apenas para Katherine Hepburn e Bete Davis.

Ela foi única e inesquecível. E, em tempo, se você tentar me convencer que Carey Mulligan de Educação e Wall Street 2 é a Audrey Hepburn do século 21, me desculpe, mas vou ser obrigado a te chamar para a briga.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A única vez que vi Pelé no cinema

Publicado no site da revista Alfa em outubro de 2010
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Segundo o IMDB, maior site de cinema do mundo, Pelé trabalhou em nove longas como ator. Eu só vi um e ainda por cima no cinema: Fuga para a Vitória de 1981. É um típico “sessão da tarde”, um John Huston infinitamente menor (pô, o cara nos deu O Falcão Maltês, Uma Aventura na Africa, O Tesouro de Sierra Madre e O Homem Que Queria Ser Rei), mas não deixa de ser um filme simpático, especialmente se você curte futebol.

A grande decepção que tive como um moleque de 14 anos é que nosso maior jogador não faz papel de brasileiro. Pelé era o Cabo Luis Fernandez, natural de Trinidad. Sei lá o que deu na cabeça de Huston para pensar em algo assim, mesmo porque, por incrível que pareça aos gringos, o Brasil também participou da II Guerra. Ou seja, nem nossa estrela podia ser nossa estrela.

Reza a lenda que o filme foi baseado em um fato real, mas se pesquisar na internet verá duas versões, uma que envolve prisioneiros de guerra em um jogo contra os nazistas e outra que diz que jogadores do Dynamo Kiev jogaram contra os “boches”. Em ambas as falácias, os germânicos perderam e os ganhadores foram fuzilados. De qualquer maneira, nas telonas a história era basicamente essa: oficial nazista (Max Von Sydow), entusiasta do esporte bretão, descobre vários grandes jogadores de futebol em um campo de prosioneiros e resolve fazer uma partida contra um time alemão. O que era para ser uma pelada entre inimigos em um campinho de várzea, vira uma arma de propaganda com direito a estádio em Paris e tudo mais e, ainda por cima, o time aliado tinha que perder ou virava chucrute.

Huston teve grandes sacadas ao fazer o filme. A primeira foi chamar 18 jogadores famosos nas décadas de 1970 e 1980 para figurar entre bons atores como Michael Caine. Havia, por exemplo o zagueiro inglês Bobby Moore, eleito o melhor jogador da Inglaterra nos 50 anos da UEFA. Já o argentino Osvaldo Ardiles, pasmem, fazia papel de argentino e não de alguém natural das Ilhas Pago Pago (a Argentina de Perón participou da Guerra?). Como aparentemente nenhum alemão queria vestir o uniforme com a suástica, o americano Werner Roth e o inglês Laurie Sivell atuaram no time nazista. Cada jogador imprimiu nas telonas algumas de suas marcas, como Pelé marcando um gol de bicicleta. Foi, aliás, o “Rei” que ajudou a coreografar todas as jogadas mostradas.

Um dos destaque do filme é Sylvester Stallone. O homem estava no auge naquela época e era um grande chamariz para fazer com que o pessoal da terra do Tio Sam assistisse um filme sobre “soccer”. Ele interpreta (na falta de palavra melhor) um militar que jogava futebol americano e quer porque quer participar do time para poder fugir durante o jogo. Acaba pegando o lugar de goleiro e obviamente faz o papel de herói. Só que o velho Sly acabou ficando com as grandes histórias por trás das telas. De início, ele se recusou a ter um dublê para as cenas de jogo. Como queria ele mesmo jogar e se recusava a ser treinado, conseguiu deslocar o ombro e quebrar uma costela na primeira cena que fez. Depois, ainda se achando um bom jogador, teve uma dividida com Pelé e ganhou um dedo quebrado. E mais, o cara exigia que fosse ele, o goleiro, que fizesse o gol da vitória (honra que ficou com Pelé, aliás). No final, Stallone afirmou que foi mais doloroso fazer esse filme do que a série Rocky.

Também vale lembrar outra grande ideia da obra: transformar a partida entre aliados e nazistas em uma batalha em campo, com direito a torcida e até mesmo resistência francesa na jogada. Se em Casablanca a guerra acontecia dentro do bar de Bogart com alemães cantando sendo sobrepujados por franceses gritando a Marselhesa, em Fuga para a Vitória, a arma era a bola, tão poderosa que vence até mesmo um juiz ladrão.

Pelé tentou continuar com sua carreira de ator, sempre sendo ligado ao futebol. Fez com Huston A Vitória do Mais Fraco, depois se aliou aos humoristas brasileiros em Os Trapalhões e o Rei do Futebol, fez o desconhecido Hotshots, onde treinava um americano no esporte e desde 1989, com uma participação em Solidão, Uma Linda História de Amor, não tenta atuar. Ainda bem. Porque é preferível que ele seja lembrado eternamente como o mestre dos campos de futebol, do que como um ator do nível de um Stallone.