quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

‘O Vencedor’ é um peso-pena com cinturão

Publicado no site da revista Alfa em fevereiro de 2011
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Em 1960, o grande diretor italiano Luchino Visconti realizou uma de suas obras mais famosas, Rocco e Seus Irmãos. No elenco, Alain Delon, Renato Salvatori, Claudia Cardinale e Annie Girardot, na história de Rosaria Parondi, uma viúva que se muda para Milão com seus quatro filhos (o quinto já estava lá) e mostra a luta de todos por um lugar ao sol na grande cidade. Um dos rapazes, Vincenzo, se torna boxeador e se apaixona por uma prostituta. Fracassado no profissão e no amor, começa a se autodestruir na bebida, enquanto Rocco (Delon) ascende no esporte e rouba sua namorada. O final, obviamente, não é dos mais felizes, embora o filme seja genial.

O tempo passa e, 50 anos depois, eis que surge O Vencedor, filme que concorre a sete Oscars em 2011 e que, apesar de ser baseado em fatos reais, se aproxima muito da obra italiana. Neste, como naquele, existe um grande drama familiar, uma mulher para transtornar a família, a mãe que tem preferência por um dos filhos (a antiga era uma típica mãe italiana dramática e a atual é a típica mãe exploradora americana), o filho problemático sendo defendido (e protegido) pelo filho bonzinho, vícios e boxe. Segundo o jornal ‘O Estado de São Paulo’, Mark Whalberg, produtor do novo filme, teve contato com a obra de Visconti quando trabalhou com o diretor James Gray,  este um fã incondicional do italiano, então qualquer semelhança pode não ser coincidência.

O Vencedor tem alguns lados positivos. Em primeiro lugar, dá para se dizer que filme está apoiado, principalmente, nas interpretações. Melissa Leo, apesar do ar de Carmela Soprano, não faz feio como a mãe e empresária de Micky Ward (este, aliás, interpretado por um apagado e desanimado Mark Wahlberg) e concorre como atriz coadjuvante. Amy Adams, longe das meninas boazinhas de Encantada e Uma Noite no Museu II, manda muito bem como Charlene, a garçonete desbocada, namorada de Ward e também briga pela estatueta. Só que quem impressiona mesmo é Christian Bale.

O ator galês, que já chegou a perder 28,5 kilos para interpretar um homem que não consegue dormir por um ano em O Operário de 2004 (e recuperar tudo de novo para fazer o homem-morcego em Batman Begins), mais uma vez aparece magérrimo e com o físico debilitado no papel de Dick Eklund, um ex-boxeador viciado em crack. Sua performace marcante e precisa, já lhe rendeu o Globo de Ouro e muitos já cantam sua vitória para o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante de 2011. De qualquer maneira, Bale se firma como um dos melhores atores da nova geração e um tremendo sucessor de “maníacos” como Robert De Niro (que, por sua vez, só faz papel de Robert De Niro hoje em dia).

Outro ponto a favor de O Vencedor é sua procura em ser historicamente correto. O ginásio mostrado no filme não é um cenário e sim o Ginásio de Art Ramalho, local onde os irmãos Micky e Dicky treinavam. As cenas de luta e do documentário da HBO sobre drogados foram feitas com as mesmas câmeras de TV dos anos 1990. e pelo mesmo cameraman da época. Até mesmo o policial Mickey O´Keefe, o velhinho que também treina Ward, é interpretado pelo próprio.

A Sports Illustrated o considerou o melhor filme de esporte da década e o melhor sobre boxe desde O Touro Indomável, o que é um tremendo exagero. O filme é bom, mas não é memorável, nem revolucionário. Tem um daqueles finais para lá de óbvio e várias cenas com tom de ‘deja vu’ ao espectador mais escolado, mas isso não o faz um mal exemplar da sétima arte, nem mesmo de uma cinebiografia. Pode não ser um Rocco e Seus Irmãos, mas como o tom do Oscar deste ano parece ser o da superação pessoal, então eu garanto que O Vencedor vai lavar a sua alma.


O Boxe no Oscar

1955 – Sindicato de Ladrões: um dos grandes filmes de Brando e Elia Kazan mostra um ex-pugilista e sua luta contra o irmão (sempre eles) e a corrupção nos sindicatos que controlam as docas de New Jersey. Levou oito Oscars : melhor ator, melhor atriz coadjuvante, direção de arte, fotografia em P&B, diretor, edição, filme e roteiro).

1976 – Rocky, um Lutador: esqueça as péssimas sequências. O primeiro filme da série, mostrando um lutador simples e humilde tentando chegar à fama, que de repente tem a chance de lutar contra um peso-pesado é divertido, bem-feito e também bem escrito (roteiro do próprio Stallone). Levou os Oscars de melhor filme (inexplicavelmente batendo Taxi Driver e Rede de Intrigas), melhor diretor e edição.

1981 – Robert De Niro: a Academia esnobou Martin Scorcese e seu Touro Indomável, o melhor filme de boxe já feito, baseado na biografia de Jake LaMotta, mas não conseguiu fechar os olhos para a interpretação magnífica de Bob De Niro, que chegou a engordar 27 quilos para fazer o ex-lutador na meia idade, depois de conseguir ter o físico de um pugilista.

2000 – Gladiador: os boxeadores do Império Romano também tiveram a chance de levar estatuetas com a história cheia de anacronismos de Maximus, o general que virou gladiador e derrubou um imperador. Ganhou os prêmios de melhor ator, melhor figurino, efeitos visuais, som e filme.

2004 – Menina de Ouro: tremendo dramalhão dirigido por Clint Eastwood, mostrando uma mulher determinada a brilhar no boxe feminino. Abocanhou os Oscars de melhor diretor, melhor filme, melhor ator coadjuvante (Morgan Freeman fazendo o papel do velho negro com bons conselhos, como em outras 356 vezes ocasiões) e melhor atriz (a ótima Hillary Swank).

Um comentário:

Petite Poupée disse...

Seu novo blog é muito estiloso, gostei. Pena q não tenha entrada para anônimas...
Consigliere saiu da lista... nhommm